Ships problemáticos – parte IV: o fetiche sobre “a novinha”

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Esta é a quarta parte de uma série de posts. Leia a primeira parte aqui. A segunda aqui. E a terceira aqui.

Estou entrando em terreno pedregoso com este post, eu sei.  Tanto pela amplitude do tema quanto por sua densidade. O fenômeno da sexualização infantil é muito complexo, o que dificulta um texto breve e recortado sobre ele, com o peso correto nas palavras. Mas vamos tentar...

Quando se fala em proteção às crianças, é importante lembrar que não apenas essa é uma preocupação recente, como o próprio conceito de infância só surgiu na idade moderna. E a sociedade ainda demorou alguns séculos para começar a se atentar a elas. Isso NÃO ameniza os males feitos no passado, mas nos ajuda a entender por que eles faziam parte de um assunto que era deixado de lado.

Hoje em dia, entretanto, ao mesmo tempo em que se fala muito disso, temos muito a melhorar. E uma das coisas que nossa sociedade ainda tem dificuldade de discernir é o conceito de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo que se repudia consideravelmente a sexualização de meninas de 11, 12 anos, ela também naturaliza e relativiza a objetificação e adultização de também meninas (sim, meninas) de 16, 17 anos. E isso pode ser exemplificado com um dos ships problemáticos mais antigos: a romantização de Lolita.

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A personagem título, na obra original de Vladimir Nabokov, tem apenas 12 anos, algo chocante até para a época (1955). Em seu filme de 1962 baseado na obra, Stanley Kubrick, além de amenizar a sexualização e não mostrar o sofrimento de Lolita, teve de escalar uma atriz de 14 anos e aumentar a idade da personagem para passar pela censura.

A redução do impacto, no entanto, levou ao aumento da romantização. Lolita virou sinônimo para adolescentes provocativas e sexualmente atraentes, que ainda guardam aspectos da infância. E ironicamente é esse ar de criança (daqueeeelas mesmas que a sociedade jura querer proteger) que mais contribui para a criação de um fetiche sobre esse esteriótipo.

Mas a “lolitização” não é exclusiva como distorção da noção de vulnerabilidade, uma vez que o inverso também acontece. Se uma menina (inclusive de menos de 13 anos) possui feitios de adulta e uma suposta maturidade, já são depositadas sobre ela responsabilidades e expectativas de adulta.

E qualquer comportamento serve de gatilho para a adultização. Como esquecer o caso de Valentina, participante do MasterChef Jr, que virou alvo na internet por sua aparência, levando até à criação da campanha Meu Primeiro Assédio? O próprio fato da menina cozinhar já era visto como sinal de maturidade.


Uma parte do assédio sofrido por Valentina (reprodução/internet)

Lembrando que a própria sociedade também pressiona meninas a se tornarem mulheres, e então se aproveita dos resultados para responsabilizá-las. Se uma menina de 13 anos já procura se relacionar com meninos, da sua idade ou mais velhos, consideram que ela sabe o que faz e "dá conta do recado". Mas se uma menina da mesma idade se comporta como criança, a tratam como imatura (coisa que nem deveria ser um problema, ela é uma CRIANÇA).

Um exemplo curioso: colegas de elenco numa novela infantil, Larissa Manoela e Maisa Silva têm perfis diferentes e consequentes repercussões diferentes na mídia. Enquanto a primeira é considerada responsável pelas próprias ações e até chamada de “puta” por namorar desde os 12 anos, a segunda já teve que rebater críticas por se comportar e se assumir como uma criança.

Maisa inclusive não escapou do assédio (reprodução/internet)

Voltando aos ships, temos o filme O Profissional, de 1994. No roteiro original, o matador profissional Léon (Jean Reno), e a jovem Mathilda (Natalie Portman), de apenas 12 anos, viravam amantes. Apesar da alteração no resultado final, ainda é possível encontrar quem romantize a relação, tomando como base tanto o vínculo afetivo mostrado nas telas, quanto as ações mais adultas de Mathilda.

Cena de O Profissional (reprodução/internet)
Também dá para fazer um post especial só sobre a fetichização da relação professor-aluna, mas vamos simplificar com um exemplo. Uma das coisas mais lindas no grupo CLAMP é que todas as formas de amor valem. Uma das coisas mais problemáticas do CLAMP é que todas as formas de “amor” valem. E em Sakura Card Captors, no mangá, há um relacionamento entre a estudante Rika Sasaki e seu professor, Yoshiyuki Terada (mesmo ela sendo uma criança). Os dois chegam a ficar noivos.

Página do Mangá em que Yoshiyuki dá um anel de compromisso a Rika (reprodução/internet)

Indo para um universo mais fanon, temos os inúmeros ships feitos entre Hermione e adultos. Hermione/Snape, Hermione/Sirius, Hermione/Lupin, até Hermione/Dumbledore: tudo isso você encontra em fanfics por aí. A própria intérprete da personagem nos cinemas, Emma Watson, já se queixou sobre a sexualização que sofreu desde muito nova, reconhecida inclusive por seus colegas de elenco. E sua personagem passou pela fetichização e pela adultização forçada, o que inclusive contribui para a objetificação da atriz.

ME-DO. E dica: não pesquise sobre Hermione/Hagrid. Sério, não pesquise (imagens: reprodução/internet)
E como eu já falei inúmeras vezes nessa série, o grande problema da romantização de elementos problemáticos da ficção é justamente o reflexo que isso traz para a realidade. Desde a transferência da carga de um personagem para a atriz que o interpreta, até a naturalização de situações como as pelas quais passaram Valentina, Maisa e Larissa Manoela.

Em tempo: de algum modo essa série está me fazendo notar que Crepúsculo consegue se enquadrar em quase todos os tipos de ships problemáticos dos quais me proponho a falar. E para não dizerem que não citei dessa vez: Bella tinha 16 anos no primeiro livro, e Edward 114. Auto-explicativo? Espero que sim.

12 comentários:

  1. Um caso preocupante que li uma vez fói sobre a série supernatural, onde os fãs shippam o Sam e o Dean e inclusive chamaram os atores do homofobicos por acharem o Ship absurdo. Inclusive citam isso em um dos capítulos da série. Quando as pessoas começam a shippar irmãos ou seja incesto é que se ultrapassou todos os limites do bom senso.

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    1. Sempre achei esse shipp super bizarro e doentio! E não sabia que a acusação de homofobia era por causa disso... É nojento imaginar que dois personagens irmãos poderiam se relacionar...

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    2. Olha, eu acho incesto uma coisa muito bizarra e o fato disso ter toda uma categoria de shipp é ainda mais assustador... :/

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  2. Um caso preocupante que li uma vez fói sobre a série supernatural, onde os fãs shippam o Sam e o Dean e inclusive chamaram os atores do homofobicos por acharem o Ship absurdo. Inclusive citam isso em um dos capítulos da série. Quando as pessoas começam a shippar irmãos ou seja incesto é que se ultrapassou todos os limites do bom senso.

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  3. Entre todos os posts dessa série, acho que esse é o mais problemático e mais ignorado de todos. Em qualquer lugar que a gente comenta sobre uma relação problemática assim, vai aparecer alguém pra dizer que "amor não tem idade". É tão comum, é tão naturalizado! Eu lembro da minha própria adolescência quando penso nisso, porque na hora da saída do colégio sempre ficavam uns caras mais velhos (ou do outro turno, ou do colégio mais próximo) que vinham ver as "novinhas", e as meninas todas se interessavam por eles, ou porque pareciam mais "atraentes" que os garotos da nossa idade, ou porque já tinham moto, ou sei lá qual outro motivo... E ninguém achava isso errado ou ruim. Era "normal".

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    1. É triste o quanto isso é naturalizado, né? Sexualização é uma coisa muito ruim, mas que infelizmente a gente vê o tempo todo por aí. Na minha adolescência tb era muito comum a gente ver caras mais velhos correndo atrás de menininhas, e era visto como normal tb...

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  4. Há um filme nacional que cont a a história de dois irmãos que se apaixonam.

    O filme mostra como uma história de amor o incesto, seria bacana falar sobre ele.

    Eu achei perturbador...

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  5. Há um filme nacional que cont a a história de dois irmãos que se apaixonam.

    O filme mostra como uma história de amor o incesto, seria bacana falar sobre ele.

    Eu achei perturbador...

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  6. Bem preocupante, mesmo.....Homens que não respeitam garotas, que poderiam ser suas filhas ou até netas, querem auto afirmar-se como machos, viris, o que a meu ver, só reflete falta de caráter , insegurança e machismo.

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    1. Definitivamente, Rosangela! Infelizmente esse é um fetiche muito forte, a juventude é tão almejada na nossa sociedade que ela se estende pras nossas crianças :/

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  7. Olha, a Internet é um local estranho e sombrio, e fanfictions não agridem ninguém.

    E o mesmo vale para mangás, especialmente no Japão. Se você acha que o romance entre professor e aluna é mau, as coisas que eu vi fariam você ter um ataque no coração. Mas é só isso, são só desenhos.

    Eu falo isso como alguém que tentou ler yaoi e tentou nao rir ou vomitar em cinco minutos.

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