Diferente dos contos de fada: seis livros infantis que vão além de um “felizes para sempre”


O universo infantil é regado de futilidades, princesas de corpos magros e feições delicadas, fadas madrinhas, príncipes encantados que surgem para salvar donzelas submissas e indefesas, além de outros estereótipos “encantados” prontos para modelar crianças para a vida adulta integrada a uma sociedade onde não existe espaço para as diferenças e tão pouco para uma igualdade de gêneros.
Pensando nisso, fiz questão de selecionar seis livros onde contos de fada são desbancados por histórias que realmente possuem algo a dizer.


1-    Malala, a menina que queria ir para a escola
A protagonista da história, além de real dá um exemplo de resistência, luta e emponderamento. Atualmente com 19 anos continua na luta pela a educação das mulheres de seu Pais.


2-    Procurando firme
Conta a história da personagem Linda- flor, uma princesa que deseja bem mais do que um marido e a submissão das regras de seu reino. Seu maior desejo é conhecer o mundo e se aventurar!


3-    Olivia não quer ser princesa
Olivia é uma porquinha irreverente que enfrenta uma crise de identidade infantil. Enquanto todas as suas amigas querem se tornar uma princesa, Olivia sente a necessidade de ser diferente, sonhar sonhos diferentes. Isso faz com que a contestadora porquinha busque alternativas para descobrir o que deseja ser


4-     Quase de verdade
Ulisses é um cachorro que late histórias para a sua dona, entre essas histórias uma aventura que viveu no quintal da senhora Oniria. Lá existia vários galos e galinhas felizes, porém a enorme figueira que tinha inveja de toda essa alegria  estava disposta a tudo para acabar com ela. 
Clarice Lispector mostra de forma suave e infantil  sentimentos humanos.


5-    Cici tem pipi?
Para Max a sociedade  era dividida em pessoas com pipi, que eram mais fortes por terem pipi, e as sem pipi. Até que em um belo dia, uma nova aluna entra para a turma de Max e o deixa intrigado. Cici não desenha florzinhas, joga bola, e anda de bicicleta. Logo o menino levanta a hipótese: Será que Ceci tem Pipi?
A história é incrível e trata as semelhanças e diferenças entre meninos e meninas.

6-    Pippi meialonga

A personagem tem apenas 9 anos, incrivelmente forte, sem pai e nem mãe Pippi aprendeu a ser independente e corajosa desde cedo. Possui sempre a resposta na ponta da língua, além de uma extrema confiança em si mesma.

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Mulher, empodere-se! - Simara Lanai


Procurando achar uma forma de dizer para as mulheres a quão poderosa elas são, então me deparei com a seguinte pergunta. Já pensou se todas as mulheres acreditassem no quão são capazes de se amarem e de se tornarem donas de si? Com certeza conseguiríamos derrubar o “espetáculo” machista.

 O espetáculo machista é também o mundo dos corpos perfeitos, quanto mais "bonita" e apresentável nos padrões estéticos corporais a mulher for, mas ela é aplaudida e considerada a “mulher dos sonhos de qualquer homem”. A cada dia aparece uma forma "feminina" de ser, para que nos “aceitem” como "verdadeira" mulher. 

Parece está tudo calculado, cronometrado rigorosamente. Nada a mais para esquerda e nem pra direita, tudo tem que está no seu devido lugar, para que nos vejam como uma “verdadeira” mulher. Constrói-se padrões estéticos, padrões ideológicos, padrões e regras de todo tipo até enquadrar a mulher numa verdadeira gaiola. 

Afinal o que vai ser do homem, se a Mulher deixar de ser essa “mulher” idealizada pelo mundo machista? Se essa mulher deixar à cozinha, deixar de querer ter filhos, deixar de servir seu marido para ir busca de novos horizontes? O que acontecerá? Simples... ela não deixará de ser Mulher apenas deixará de ouvir o mundo machista para ser ela mesma! Mulher construa seus próprios padrões e empodere-se!

Liberté!






Silmara Peixoto Moreira, feminista, pesquisadora, graduada em Bacharelado em Humanidades e graduanda em Sociologia, UNILAB.

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Ships problemáticos – parte III: quando o ‘creepy’ vira ‘fofo’

Reprodução/internet

Esta é a terceira parte de uma série de posts. Leia a primeira parte aqui. E a segunda aqui.

Em um episódio de How I Met Your Mother (P.S. I Love You, 8x15), o pior personagem protagonista Ted apresenta a teoria “Dobler-Dahmer”*:

“Se duas pessoas estão a fim uma da outra, então um grande ato romântico funciona: Dobler, mas se uma pessoa não está a fim, o mesmo gesto vira uma loucura de serial-killer: Dahmer”

Ele usa essa teoria para justificar as ações de uma garota em quem ele está interessado, Dobler, mas que ao longo do episódio vai se revelando mais e mais esquisita, até acabar virando uma Dahmer.

Reprodução/internet
Por mais que eu deteste o Ted e essa teoria seja problemática, o episódio faz uma brincadeira que ajuda a esclarecer uma coisa: não importa o quanto haja interesse das duas partes, existe um limite, em que você começa a invadir o espaço pessoal de alguém, e em que invariavelmente você se torna um stalker.

Dito isso, é interessante observar o quanto a ficção ignora esse limite, mesmo quando o cara tem tudo para se enquadrar num Dahmer. Isso até quando não existe qualquer reciprocidade (elemento básico para considerá-lo um Dobler, só lembrando).

"Não tenho certeza se é romântico ou assustador" Na dúvida, assustador. Sempre asustador (reprodução/internet)

Ah, e claro, aquela velha regra de “aceitável para homens mas não para mulheres” permanece aqui, viu? Enquanto o cara obcecado é romântico, a moça que faz as mesmas coisas que ele é patética. Por isso é tão mais comum ver ações masculinas do tipo sendo romantizadas na ficção.

Assim, se cria um fenômeno tão assustador quanto seus protagonistas: o “creepy guy” que acaba virando “o fofo”. Não importa se ele se pendura em uma roda gigante e ameaça se matar se a garota não sair com ele, se ele fica no quarto dela escondido a vendo dormir (cof-Crepúsculo de novo-cof) ou se ele é um dos muitos personagens bizarros de filmes do Adam Sandler.

"Edward: Eu estou aqui todas as noites... Te observando enquanto dorme. Bella: Oh, Edward! Isso é tão romântico!"
"STALKERS: Eles NÃO são românticos. Eles são ASSUSTADORES. Chame a polícia" (reprodução/internet)

Essas coisas não são apresentadas como atos perturbadores e sinais de possíveis distúrbios psicológicos, mas como ações de românticos incorrigíveis. Ah, importante frisar: nem sempre o creepy guy precisa de ajuda psicológica; às vezes ele é só um babaca acostumado a ter tudo o que quer.

E como eu já falei no último post, esses padrões das grandes produções estão entre os responsáveis pelo surgimento e manutenção de ships com a mesma ideia. Em Friends, por exemplo, há um episódio em que a Phoebe passa a ser seguida por um cara que acha que ela é sua irmã gêmea, Ursula. Ela acaba se afeiçoando ao stalker, e inclusive deixa que ele a siga. O relacionamento dos dois não chega nem perto de dar certo por motivos óbvios, mas eu já topei com fãs que chegaram a shippar o “casal”.

Malcolm (stalker da Ursula) e Phoebe  (reprodução/internet)
Um caso bem recente vem da nova produção da Netflix, Stranger Things – que, aliás, foi o que me fez lembrar desse fenômeno e adicionar estre post à série –. Vou tentar não dar spoilers (até porque eu ainda estou no 4º episódio e só vou falar sobre o que já vi e no máximo me basear no que me falaram). Mas se não quiser saber nada sobre, pule para os dois próximos parágrafos.

Basicamente, não é nada legal um romance entre a Nancy e o Jonathan depois que ele a espionou e fotografou escondido em um momento de intimidade. Aliás, a espiada já é creepy e invasão de privacidade por si só, mas o registro da sua imagem sem autorização não só é ainda mais assustadora como, com o perdão da palavra, bem escroto.

Jonathan e Nancy  (reprodução/internet)

Surge também a questão que shippá-la com ele só por considerar pior o outro pretendente dela, Steve, é um reforço da ideia de que uma personagem feminina precisa de um homem para ter sua trama completa.

E enquanto o padrão da semana passada (o personagem feminino como redenção do masculino) trazia a mulher como recompensa pelo bom comportamento do homem, este de certo modo faz um caminho inverso: não só não importa o quanto o cara ultrapasse o limite pessoal da moça, como é isso que o leva a conquistá-la. Acho que dá pra entender o que tem de errado aí, né?

* A teoria faz referência a Lloyd Dobler, do filme Digam o que quiserem, e ao serial-killer Jeffrey Dahmer

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Hoje nada de Frankenstein.




        Dizem que “filho de peixinho, peixinho é!”. E é justamente em cima disso que me propus à escolhida de hoje: Mary Shelley. Para quem não a conhece, mas, possivelmente está mais familiarizado com a sua obra, isto é, Frankenstein, já deve ter caído no mesmo erro que eu em acreditar que tal nome faz jus a um homem e não a uma mulher, estou errada? Espero que sim! Enfim, descoberta sua verdadeira identidade, como mulher e jamais como homem, cabe agora a explicação acerca do uso do citado provérbio.

Shelley era filha de Mary Wollstonecraft (1759-1797), a qual, embora atravessada por um cenário de revoluções e defesas em nome do masculino, protagonizou as primeiras manifestações feministas, cujas atenções e desejos foram registrados na obra “A Reivindicação dos Direitos da Mulher” (1792). Acerca disso, para quem não sabe, em 1789 foi publicada a Declaração dos Direitos do homem e do Cidadão, documento que, obviamente, estava comprometido com as garantias de solidariedade, liberdade e igualdade sobre e para as realizações masculinas.


Portanto, Shelley ganha meu tímido espaço de admirações justamente porque ela, assim como a mãe, se destaca em manobras que as elevam dentro das categorias em que foram socialmente postas, embora as cortinas politicamente e simbolicamente turvas que, discretamente, deixaram-nas sucumbir face ao tempo e as convenções de uma sociedade acostumada a reconhecer, privilegiadamente e preliminarmente, os homens como sujeitos de destaque. À vista disso, ficam aqui não só duas grandes mulheres, como também referenciais de luta e, especialmente, de importantes leituras. Mãos à obra?! Eu começaria pela mãe, claro! 




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10 blogs incriveis para inspirar os seus textos e sua leitura!



Hoje o post vai ser especial. Vamos indicar blogs que tem uma relação direta com o mundo da literatura feminina. Neles você vai encontrar contos autorais, textos de opinião e inúmeras histórias que farão você pensar e debater assuntos que sejam do seu interesse.

O principal tema que irei citar sobre os blogs que escolhi são os textos. Dessa forma, nossas escritoras/leitoras poderão se envolver com mais literatura feita por mulheres para mulheres. Mas os assuntos abordados pelas blogueiras é muito vasto, não se prenda a uma única categoria quando for visitar. 

Foi difícil escolher entre tantos blogs, mais acho que consegui uma seleção bem diversa para agradar a todas. Todas as escolhas vieram do grupo do Facebook Blogueiras - Inspiração e Interação. Por mais que não tenha todos os blogs aqui, vocês vão encontrar todos os participantes da blogagem coletiva lá no grupo. 



A Laura escreve no blog A Menina da Janela. Nele vocês irão encontra textos e resenhas maravilhosas. Ela conta sobre bienais de livros, responde a tags literárias, tem textos autorais e resenhas de livros ( minha postagem preferido da categoria livros é essa).


Esse é o blog da Clara. Nele vocês irão encontrar decoração, looks, textos, feminismo, auto estima e muito mais. Eu quero indicar três publicações que eu amei muito e acho que deveriam começar por elas: para quem quer iniciar um negócio (como eu), temos esse; para as amigas que sabem que menstruação não é sorrisinho da hora que acorda e até durante o sono, leia esse; e aqui tem um para o seu ego. 




A Mari faz um trabalho lindo no blog dela. O Letras na Gaveta é ótimo para quem gosta de fotografia, dicas para organizar sua vida pessoal e profissional e literatura (claro). Os meus preferidos dela são 'Amiga, ele não é o único. ' e 'Você cultiva o amor próprio?'. Espero que gostem.

Eu particularmente amo o blog da Bruna. É o lugar perfeito para quem quer se organizar, os planners que uso são todos criações dela (e disponibilizados por ela no blog). Bruna também aborda assuntos como anorexia e bulimia, feminismo e muitos opiniões que podem combinar com as suas. Quero indicar esse e esse pra vocês. E os planners gente, façam com ela. 





Entre Anas é maravilhoso, tem feminismo, livros e reflexões INCRÍVEIS. A responsável pelo blog é a Luana. Eu lia o texto Carta às minhas professoras de Ballet , e me dava vontade de escrever uma carta  pra minha professora. Também amei os textos sobre hierarquia no feminismo e esse aqui também. Entra no Midia Kit dela, para saber mais detalhes.



A Isabela (bela nuvem azul) é o cérebro por trás do Nuvem e ela é muito boa no que faz. Seu blog tem DIY, Medicina Veterinária, feminismo, livros, animais fofos e muito mais. Mas quero chamar atenção para uma parte do blog que eu amo demais, os poemas da Isabela. leiam todos gente, vale cada minuto, são todos meus preferidos.

A Dani tem um blog ótimo para quem precisa se organizar. Eu preciso muito de organização, adoro planner e agenda, se não eu fico tento problemas para me dividir entre trabalhar, escrever, curtir a vida, ler e muitas outras coisas. Então entre no blog dela e leia tudo, principalmente a categoria Organização.








A Erika tem um blog lindo também. Visito ele todos os dias, gosto de ler as resenhas dos livros e dos filmes, também sigo as indicações de livro dela. Um livro do qual ela falou e quero ler é O Lago à Sombra das Estrelas, da Carolina Brião. Também pego dicas para me ajudar a escrever, como nesse post.

O Profano Feminino tem as lindas Isabela e Ane como mentes responsáveis. Lá vocês irão encontrar moda, dicas de vestibular, livros e textos lindos. Lá tem o texto Feito Pássaros, tem também As Mentiras Que Nos Contam (o meu queridinho). Esse último faz parte do Projeto Escrita Criativa, grupo destinado aos que gostam de escrever.






Quem cuida desse é a Simone. Indico pra quem gosta de ler muito, já que ela tem inúmeras indicações de livros, de todos os gêneros. Também tem as HQs lá no blog, inclusive ela fala da Capitã Marvel, vocês deveriam ler. Aproveita para ler os contos dela também. 

Bom, é isso pessoal. A sua lista de blogs ligados a literatura acabou de ficar mais iluminada. Entre nos que mais gostaram, não vai ser arrependimento nenhum. 

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Modelo de mulher perfeita! Guia de regras.



Nós mulheres já aprendemos o fato de que nunca conseguiremos agradar à sociedade. Esteticamente, comportamentalmente, até imaginariamente: sempre nos exigem mais do que podemos oferecer, e parece que nunca se decidem o que querem de nós. Não pode ser puta, mas tem que saber fazer os desejos do seu homem. Não pode ser feia, nenhum homem gosta, mas também não pode ser bonita, chama atenção demais. Não pode gostar de "coisas de homem", mas se gosta de "coisas de mulher" demais, é fútil. Não pode fracassar na carreira, mas também tem que saber se por em seu lugar é não almejar ir muito longe. Também não pode ser meio termo de nada, é muito sem graça.


Nossas escolhas também nunca agradam. Vai cursar faculdade de humanas? Moça direita não se envolve nessas coisas de maconheiro. De exatas? Ah, mas é área muito masculina, não vai dar conta. Biológicas? Muito difícil, vai passar a vida estudando e esquecer de você. Não quer ter filhos? Mas filho é presente de Deus! Quer ter? Mas tem certeza de que vai por mais uma criança no mundo como ele tá? Vai ser dona de casa? Que horror, parece que vive na década de 50. Vai mesmo trabalhar fora? E da casa, quem vai cuidar? 


E isso tudo, naturalmente, deixa algumas de nós confusas (isso quando já não somos de nascença). Mas.... Também não pode, não! Onde já se viu, não sabe nem tomar uma decisão direito! Mas se tem certeza de algo, nossa, escarcéu. Onde já se viu, mulher querendo mandar na própria vida? E segue assim, que ironia: a sociedade pode ser indecisa, nós não. Mulher que sabe de si incomoda. Mulher que não sabe incomoda. Mulher incomoda.

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Ships problemáticos - parte II: 'Ela é a redenção dele'


Esta é a segunda parte de uma série de posts. Leia a primeira parte aqui.

Era uma vez, uma mocinha. Essa mocinha era uma pessoa legal, que não desejava mal a quase ninguém, e na maior parte do tempo estava até fazendo o bem. Mas existia também um cara mau que não a deixava em paz. Ele a tratava das piores maneiras possíveis, sem se importar. Os sentimentos dela? Não valiam nada. O que valia era a vontade dele.

Só que, secretamente, esse cara mau escondia um enorme amor pela mocinha. Mas como ele era mau, simplesmente seguiu fazendo essas coisas horríveis com ela. Até que, um dia, alguma coisa fez com que ele deixasse de fazer uma coisa ruim com ela, e o amor falou mais alto. Isso fez então com que a mocinha não apenas o perdoasse, como caísse de amores por ele. E, assim, os dois ficam juntos, se amam, ele se redime de todos os pecados e eles vivem felizes para sempre.

Será?

Essa história te comoveu? Se sim, não deveria. Se não, você consegue ver por que? Há algo de cruel aí. Pra início de conversa, temos a limitação de uma personagem feminina, que poderia ter mil potenciais a serem explorados, a mero interesse romântico do personagem masculino. Mas isso, apesar de ser um problema, ainda é menor do que o que dá nome a esse post: a redução da personagem feminina ao elemento de redenção do cara que a fez tanto mal.

Esse é um elemento comum na ficção: Crepúsculo, 50 Tons de Cinza, Gossip Girl, inúmeras novelas... São várias as tramas em que a personagem feminina é maltratada por um cara (vilão anunciado ou não), mas que no final é o amor dele por ela (e, claro, o fato deles acabarem ficando juntos) que faz com que ele se arrependa dos seus erros e passe a ser um cara legal.

Esse é um padrão que GRITA machismo. Sabemos que a sociedade prioriza os sentimentos dos homens aos das mulheres. Isso a gente vê o tempo todo: com o monte de "not all men" que surgem quando estamos falando de casos de estupro, com o benefício da dúvida que eles sempre recebem ao cometerem violência contra nós (para não correr risco de manchar suas reputações com nosso sangue), com a exaltação dos "heróis da friendzone" que foram rejeitados pelas moças malvadas... E inclusive na ideia de que se um homem te ama, tudo que ele faz se justifica. E consequentemente a arte espelha em si esse padrão.

E como o fandom (universo de fãs) espelha tanto a sociedade quanto a cultura de massas, não chega a ser completamente surpreendente que surjam ships não-canônicos que seguem essa mesma lógica. No primeiro post eu citei um deles, um dos piores aliás: Jessica Jones e Kilgrave. Mas não precisa ir tão longe para encontrar ships que costumam ser defendidos com base na ideia de que o amor da mocinha pode levar o cara mau para o caminho do bem.

Em Star Wars VII, há pessoas que shippam Rey e Kylo Ren por esse motivo, mesmo depois dele tentar matá-la. Mas  ideia de que ele poderia sair do lado negro da força se ficar com ela parece ser argumento suficiente para isso acontecer, né? Né? Este texto no Tumblr (em inglês) faz uma excelente análise do caso, que também  se aplica a este post em geral.

É justamente no Tumblr que esse ship é tão  popular, e onde mais aparecem fanarts como essa

Não, nem o seu Dramione escapa desse padrão. Draco é sim um personagem complexo, que cresceu numa família que não lhe passou outro tipo de comportamento senão o elitista e preconceituoso. Mas isso não muda o fato de que ele era racista e cruel, inclusive com a Hermione. Só por um instante, traga a situação para a vida real e substitua a expressão "sangue-ruim" por "macaca" ou qualquer outra ofensa racista. Ia continuar sendo legal que os dois ficassem juntos, depois de tudo que ele fez com ela, só porque isso significaria que ele estava se redimindo? Esse tipo de bullying pesado, especialmente o bullying racista, deixa marcas profundas. Até a idéia dos dois ficarem juntos só depois que ele encontrasse essa redenção, sozinho, me desagrada. É um tipo de passado difícil de ser deixado para trás.

Snape/Lily é outro ship que se assemelha a Dramione e não  deixa de ser complicado. Apesar de "Always" ter virado um lema entre os potterheads, não dá para esquecer  que Snape praticou esse mesmo bullying racista contra Lily, que pra piorar era sua amiga. Além  de ter colocado essa amizade abaixo do orgulho e seguido por um caminho que faria mal a ela mesma.

Em suma, o problema é que esse tipo de ship nunca leva em conta os sentimentos da personagem feminina. Quando muito, dão uma medalhinha de honra ao mérito pela conquista de ter mudado a vida de alguém. Só que mulher nenhuma tinha que ter uma obrigação moral de mudar um homem, muito menos de um que a fez tanto mal. E esse papel parece inofensivo quando falamos de ficção, mas aplicado à vida real ele é extremamente nocivo. E assim como a ficção reproduz elementos da vida, ela também faz a manutenção de  valores e padrões sociais.

Ah, algo que eu já falei na primeira parte dessa série, mas sempre é bom reforçar. Quando falamos de ships não-canônicos temos uma margem muito grande, feita pela imaginação dos fãs. Um ship muito problemático pode virar algo muito mais complexo dependendo da motivação de cada pessoa. O importante aqui é fazer uma reflexão sincera sobre a sua, e se necessário admitir que alguma coisa não tá legal aí.

SPOILER DE BUFFY: THE VAMPIRE SLAYER
Deixo aqui um mea culpa: já shippei Buffy e Spike por esse motivo. Quando caiu minha ficha, me senti mal, mas fiquei feliz por ter refletido sobre o assunto. Lógico que não vou negar que eu ainda vejo certa química entre eles, mas não mais ao ponto de querer que ele fique com ela só porque ficou (ou para ficar) bonzinho, né? E, olha, uma coisa a ser aprendida com a série: o cara pode ficar bonzinho porque gosta da garota legal, mas ele não precisa ficar com ela ou ganhar uma estrela dourada por/para isso.

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A luta dos movimentos feminista contra a desigualdade de gênero. - Por Silmara Lanai

Imagem/Reprodução

Os estudos de gênero tem mostrado, em linhas gerais, que a ciência está falando apenas de uma parte desta humanidade, vista sob ângulo masculino, e que não foi por acaso que, durante séculos, havia poucas cientistas mulheres. Pois “a ciência que aprendemos desde a escola reflete os valores construídos no Ocidente desde o final da Idade Média os quais se refletem em apenas uma parte do social: a dos homens, brancos e heterossexuais” (GROSSI, 1996, p. 4).

Diante disso, através dos movimentos sociais feministas, a mulher ganhou maior visibilidade na sociedade (devemos lembrar-nos da contribuição dos movimentos LGBTT, negro e, em especial, o movimento feminista negro, por ter levantado a importância de ser pensar a interseccionalidade, por sofrer cotidianamente o racismo e a discriminação de classe e gênero), assim foi possível reescrever a história das relações sociais adicionando a mulher a esta reescrita até então esquecida durante séculos. No caso brasileiro, as mulheres dos movimentos feministas assumiram tardiamente uma luta que já começou na Europa e nos EUA no início da década de 1960, e tinha como uma das principais bandeiras “o respeito à autonomia e à liberdade da mulher” (PETERSON, 2004, p. 142).

A desigualdade de gênero existente na sociedade é fruto histórico do sistema patriarcal, no qual o homem, no papel de marido ou pai, é o ator/personagem fundamental da organização social. É ele quem exerce a autoridade sobre as mulheres, os filhos e os bens materiais e culturais, (ALVES e CAVENAGHI, 2012, p. 102). O patriarcalismo resultou em exclusão social para nós mulheres. A dominação masculina e o modelo patriarcal foram construídos culturalmente ao longo do tempo em nossa sociedade, como afirma Bourdieu (2012, p. 45).

A dominação masculina encontra, assim, reunidas todas as condições de seu pleno exercício. A primazia universalmente concedida aos homens se afirma na objetividade de estruturais sociais e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho de produção e reprodução biológica e sexual, que confere aos homens a melhor parte [...] (BOURDIEU, 2012, p. 45).

Além do sistema patriarcal enfrentamos o sistema capitalista. A Síntese de Indicadores Sociais 2002, lançada pelo IBGE, confirma que na desigualdade por gênero, as mulheres ganham menos que os homens em todos os estados brasileiros e em todos os níveis de escolaridade. Elas também se aposentam em menor proporção que os homens e há mais mulheres idosas que não recebem nem aposentadoria nem pensão. O sistema capitalista (produção privada dos meus de produção) historicamente se favoreceu com a mão-de-obra “barata” das mulheres e das crianças, enquanto as mesmas eram impedidas de participar da vida política e das decisões que favoreciam a classe burguesa, dominada por homens que consequentemente fortaleciam o regime patriarcal (dominação masculina), que cada vez mais silenciavam as vozes das mulheres. Diante disso os capitalistas se aproveitavam para manter essa desigualdade entre homens e mulheres.

A desigualdade de gênero é um dos maiores problemas enfrentados pela mulher nessa sociedade fundamentada no patriarcalismo que regulariza a relação de gênero como homem e mulher voltados apenas para procriação, deixando de lado outros aspectos importantes para a vida social da mulher como educação, trabalho, saúde, lazer etc. Cecília Toledo (2014, p. 13) fala da ideologia machista construída desde 1865 até meados da década de 1880, segundo o qual “lugar da mulher é no lar”, que foi impulsionada por intelectuais da época, filósofos, pesquisadores influentes nos meios políticos e operários de toda a Europa, cujas ideias defendidas eram bem semelhantes às dos pais da Igreja, isto é, os teólogos que construíram a teologia do catolicismo na Idade Média (TOLEDO, 2014, p. 13).

Essas ideologias machistas diziam, por exemplo, que a função da mulher era a procriação e as tarefas domésticas. Portanto, segundo essa concepção, a mulher que trabalhava fora de casa estava roubando o trabalho do homem. Chegaram até a propor que o marido tivesse direito de vida ou morte sobre a mulher, em casos de desobediência ou falta de caráter, mediante a uma relação aritmética, a inferioridade do cérebro feminino em relação ao masculino, (TOLEDO, 2014, p.13).

Em consequência dessas ideias machistas, a opressão ainda é vivida nos dias de hoje pela mulher diariamente, em casa, na rua, na escola ou no trabalho, nos quais seus direitos ainda estão comprometidos além do sistema capitalista que as exploram, também por essas ideologias conservadoras de cunho patriarcal ou a dominação masculina (BOURDIEU, 2012), que durante séculos oprimiu e discriminou as mulheres e hoje as mesmas sofrem a opressão do sistema explorador capitalista e das ideologias machistas que constantemente lhe dizem como devem pensar agir e como devem vestir-se e comportar-se em nossa sociedade.

A inserção das mulheres através da sua luta e resistência no meio social (antes apenas dominado por homens) de forma efetiva possibilitou o reconhecimento, não apenas dos seus direitos, mas também da sua liberdade de se expressar, de seu direito de decidir sobre ações importantes na vida política dentro da sociedade, assim como o direito ao voto. Sua participação continua sendo peça fundamental para a construção efetiva da democracia, que é uma luta constante nessa sociedade fortemente marcada pelo patriarcalismo e pela desigualdade social e racial, disseminada pelo sistema explorador (capitalista) e seu estado burguês.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALVES, J. E. A, CAVENAGHI. S. M. Indicadores de Desigualdade de Gênero no Brasil. Mediações, Lodrina, v. 17. N. 2, p. 83-105. Jul-Dez. 2012.

BORON, Atílio A, AMADERO, Xavier, GONZÁLES, Sabrina. (Orgs). A teoria marxista hoje: problemas e perspectivas. Buenos Aires: Clasco, 2006.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 11. ed. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 2012.

COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos Direitos Humanos. 7. ed., ver. e atual . São Paulo: Saraiva, 2010.

GROSSI, Mirian Pillar. Identidade de Gênero e Sexualidade. Vº Curso de Saúde e Direitos Reprodutivos: Campinas, 1996.

MELO, Hildete Pereira de. Gênero e Pobreza no Brasil. CEPAL-SPM: Brasília, 2005.

MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 12 ed. São Paulo: Atlas, 2002.

OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. As mulheres, os direitos humanos e a democracia. Textos do Brasil: Cinquenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, Maio/Agosto 1998 Ano II – no 6.

PETERSEN, Janine. Feminismo e a polêmica da contracepção no Brasil (1970-1980). Esboços-Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFSC, Florianópolis, v.11, n.11, p. pp. 135-144, jan. 2004.

SOARES, Maria Victoria Benevides. Cidadania e Direitos Humanos. In: CARVALHO, José Sérgio (Org.) Educação, Cidadania e Direitos Humanos. Petrópoles, RJ: Vozes, 2004. págs. 56-65.


TOLEDO, Cecília (org). A Mulher e a luta pelo socialismo; por Kalr Marx, Friedrich Engels, V. I. Lênin, Clara Zetkin, Leon Trotski. 2.ed. São Paulo: Sundermann, 2014.





Silmara P. Moreira, feminista, escritora, graduada em Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades e graduanda em Sociologia, UNILAB.

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Poesia e Hip- Hop: Conheça Kate Tempest


                                              Foto: Divulgação

Kate começou sua carreira em competições de hip-hop, e no teatro com renomadas companhias inglesas, todas as diversas experiências tornaram sua obra tão multifacetada e rica em diferenciais.

Embora desconhecida em solos brasileiros à britânica de 30 anos  é um dos nomes que mais crescem na cena do Hip-Hop Londrino, além de já ter vencido com sua poética o  premio "Ted Hughes ”

Com  textos teatrais e coletâneas de poemas publicadas, seu primeiro romance “Os tijolos nas paredes das casas” lançado este ano  foi sua primeira obra a chegar no Brasil.

Flip 2016
A poetisa foi aplaudida de pé na flip 2016 (Evento literário de Paraty) com sua intensidade  sem  tradução simultânea conquistou e emocionou o publico ao recitar dois de seus longos poemas.
 
Kate Tempest durante a Flip 2016 (Foto:Divulgação)



 Os tijolos nas paredes das casas
O livro conta a historia de três jovens que  resolvem  sair da cidade a fim de escapar de suas vidas vazias, com a esperança de escapar do tédio inesgotável, em busca de lugar nenhum. A obra explora a vida urbana em um aspecto moral e detalhista.

                                                                    Foto: Divulgação
                                                                                                         
Everybody Down
O álbum deu origem ao romance "Os tijolos nas paredes das casas" que trata das mesmas personagens com a poética do hip-hop. 


O livro já está disponível no Brasil pelo site da Saraiva
Para mais informações da escritora: site oficial 

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Não me leve ao altar!


       

         O casamento é uma das tradições mais antigas da nossa História. Tratado como aliança, possibilitou acúmulos de grandezas e legados (in) voluntariamente abastados. De qualquer forma, como ato político, o casamento foi e ainda é carregado de significados e tradições que, sob olhos desatentos e acortinados pelo vislumbre dos tecidos, doces e rosas, parece uma sutil e conveniente maneira de dizer “eu amo você!”.


Mas, o que eu acho disso? Bem, não é novidade que desde minha infância me rebelei contra os caprichos de uma sociedade fadada às atenções do masculino, logo, não seria através da opulência que ganha corpo e se converte em um minúsculo momento de exclusividade que minhas críticas sucumbiriam à tradição, não é verdade?!

Embora a compreensão do hábito e da defesa para que se atendam necessidades lapidadas essencialmente em mulheres ainda crianças, o casamento não passa despercebido no que tange suas questões mais intrigantes e eficazmente turvas. Assim, para mim, a efemeridade do ato supõe patrocínios ao masculino e, como tal, zela pela manutenção de uma conjuntura que roga pela lei do mais forte, isto é, o homem.

Posto isso, proponho meus questionamentos mastigados e engolidos com muitas taças de vinhos e outras formas de álcool (o que vier) enquanto observo e PARTICIPO das hipnóticas, para não dizer soníferas, plásticas de alianças. A primeira delas está voltada para a entrada do noivo como sujeito que abre a cerimônia, que, por sua vez, aguarda fechada em choros, suspiros e muita paciência, pela personificação da castidade traduzida em sentidos na cor que ela veste – o branco e, por conseguinte, a noiva.

Se só a intencionalidade do vestido já me incomoda, que dirá o requisito de quem a acompanha, ou seja, o pai! É nesse exato momento que problematizo a experiência de uma mãe, a qual carrega por nove meses um ser humano e a ele ou ela serve como hospedeiro por longos meses da vida, que, em seu momento de destaque, volta-se para o pai e faz dele um sujeito em distinção. Como e por quê?! Alguém explica?!

Por fim, meu momento mais sublime das dissonâncias (sem querer entrar no mérito dos famosos bonecos que ficam em cima do bolo, os quais, não raro, têm noivas "malucas" arrastando seus companheiros), se desenvolve quando o pai entrega sua filha ao marido. Engraçado, mas eu não vejo homens sendo entregues por seus pais às mulheres...

Compactuo com a exigência de aportes capazes de subsidiar qualquer afirmação, mas, em se tratando da História das mulheres, me parece praticamente improvável a necessidade, neste caso, de uma historicização que dê conta de sua condição no passado (legitimada por leis) no que diz respeito sua ausência de autoridade em privilégio do pai ao marido, portanto, de forma prática e sucinta, é notória a percepção de que naquele momento a mulher, assistida por sua mãe, passa da autoridade paterna para a autoridade do marido (ainda que, atualmente, não sejamos mais embalados por pretextos e determinações políticas – o conflito se converge no simbólico).

Enfim, quem disser o contrário está intimado a me fazer enxergar. Quem sabe assim, um dia, não seja eu subindo naquele altar?! Pera! Altar...Igreja...Mulher...Religião??? Acho que precisaremos de mais uma conversa...


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