Queria ser otimista o bastante para dizer que essa frase nunca foi tão verdadeira (Foto: internet/reprodução)
Depois de todo o bafafá que o tema da redação do Enem causou ontem, eu estava determinada a fazer textão sobre o assunto para postar aqui no blog, mesmo que só no dia seguinte. Talvez em parte seja pelo ressentimento de não estar lá, fazendo essa prova só pra sambar na mesa examinadora com minhas palavras. Mas o dia seguinte chegou e passou, e me vieram duas desmotivações: o medo do assunto já ter esfriado e o de que tudo já tenha sido dito. Mas, ei! Aí mesmo é que eu preciso escrever, aí é que não podemos deixar o assunto esfriar e muito menos que o que já foi dito cale o que nós ainda temos a dizer. Mesmo que seja para reforçar o coro dos que já se manifestaram em polvorosa na noite de domingo, mesmo que as nossas vozes não se destaquem no meio dessa multidão: precisamos falar.

Indo ao ponto, então. Para quem estava numa bolha no domingo ou curtiu loucamente o dia mais badalado da semana (só que não), uma contextualização. Esse fim de semana houve a prova do Enem, que trouxe na redação o tema "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". Só isso foi suficiente para que a internet enlouquecesse. O tema foi imensamente bem-recebido e comemorado pelos quatro cantos, pelos mais variados motivos. O principal (e que menos me entusiasma, na verdade) foi a chance de se detectar os “machistinhas” de plantão, que provavelmente acabariam violando direitos humanos em seus textos, o que resultaria em desclassificação imediata.

No entanto, eu não posso ser tão otimista assim, já que eu sei que machista também sabe mentir. Os que seriam capazes de fazer uma argumentação coerente em qualquer outro tema podem muito bem ocultar qualquer caráter desrespeitoso na redação, enquanto os demais provavelmente já não iriam bem na prova, mesmo. Provavelmente apenas uma minoria deve vir a ter seus textos desqualificados assim.

Mas isso não impede que eu comemore, e muito, algo que para mim é muito maior e mais provável que tirar machista da Universidade. Trazer uma redação com um tema social desse calibre escancara ainda mais sua relevância, ainda mais na fase atual, quando tantos propagam a falsa ideia de que nós já alcançamos tudo que tínhamos para alcançar. Quando falo nós tento ser mais ampla, pois não é apenas a luta feminista que vem ouvindo que não é mais necessária. Mas como é o foco no momento, voltemos a ela.

Como já disse ao compartilhar uma publicação na fanpage no Facebook, esse tema nos traz duas grandes esperanças, parecidas, mas principalmente complementares. De um lado, se forem bem avaliadas (e não aprovarem outra receita de Miojo), as redações podem servir como parâmetro para medir o preparo dos candidatos para entenderem um tema do qual muito se fala, mas do qual pouco se tira. As discussões de internet estão aí para demonstrar que o feminismo vem crescendo de forma linda, mas que seus antagonistas também vêm surgindo de todo canto com argumentações vazias.

Do outro lado está o alerta definitivo para nossos professores e escolas entenderem finalmente que temas de relevância social são também relevantes para a formação dos estudantes. Mesmo que de modo forçado, esses assuntos terão de entrar na pauta das conversas em sala de aula. Até as instituições que focam apenas na prova do Enem e deixam a formação e responsabilidade social de lado devem acabar percebendo que, se quiserem manter seus status, terão de falar sobre minorias sim, senhor. Não são bons motivos, mas já é alguma coisa. E só de saber que os jovens estão pensando sobre temas sociais eu já me sinto muito satisfeita. Porque é a partir do pensamento e das ideias que começam a surgir as revoluções.

Agora vamos de bom humor? haha

Daqui pra frente o Enem vai ser diferente
Você tem que aprender a ser gente
Machista não passa em mais nada! Nada!
(Foto: Reprodução/Facebook)

Meu texto de hoje é sobre a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. Pois é, meus amores, o Enem fez a alegria de muitas pessoas (e o desespero de outras) com o tema da redação deste ano. E o nosso blog não deixaria de tocar nesse assunto de tamanha importância.


Como fui uma das milhões de pessoas que participaram de camarote (esse foi meu terceiro Enem), já informo a todos que meus lábios se abriram em um radiante sorriso quando me deparei com o tema. Imediatamente, milhões de palavras surgiram em minha mente, afinal, há muito a ser dito sobre. É claro que a ideia de que o assunto já deu o que tinha que dar está sendo considerada, mas é por isso que eu escolhi publicar hoje. Da mesma forma que a violência contra a mulher é ignorada dia após dia, muitos também a desconsideraram no dia de ontem, atitude que não devemos permitir.

Vamos deixar claro que não estou falando apenas dos machistas que abaixaram o topete ao redigir a redação, mentindo sobre apoiar a causa, mas também dos que se mantiveram estúpidos machões e defenderam que a culpa é da mulher - o que, a proposito, resultará em anulação imediata (J). Quero que percebam a importância social e educacional em torno desse assunto, ok? Ficou claro que a forma automática das quais escolas fazem uso para ensinar está caindo por terra, pois quanto menos envolvidos nesse tipo de questão menor será o preparo para participar de vestibulares, Enem, carreira, vida social, etc.

Acredito que conscientização é chave para melhorar um monte de coisas, mas infelizmente ela não funciona em todos. Talvez, se esse tipo de repercussão surgir com maior frequência, as pessoas passem a dar a devida atenção aos problemas sociais.


Olha, cara, eu tô de boa com esse seu desejo, sabe? É sério, eu não vou brigar por esse motivo. Na verdade, eu até aceito que você tenha suas vontades e preferências. Tranquilo se você curte minas assim ou assado, e que não queira nem passar perto das que não são do estilo que combina com o seu. Olha só, parece que a evolução até explica que você procure sempre pela bunda mais redondinha e pelo peito mais empinado, e eu entendo isso.

Só que, talvez, eu simplesmente não queira ser uma mulher ideal. Sei lá, não tô no clima pra isso, sabe? Não faço questão nenhuma de caber dentro das suas preferências. Fui feita pra mim mesma, não pra você, e estou feliz assim. Olha só, que curioso, eu só não quero que você me queira.

Tudo bem então se eu sou gorda demais, magra demais, alta demais, baixa demais, preta demais, pálida demais, velha demais, nova demais, independente demais, insegura demais, rica demais, pobre demais, mulher demais pra você. Porque talvez eu simplesmente não seja pra você.

De todas as mulheres que não são perfeitas, mas reais

(Logo do projeto Love it Forward List)
Você conhece o projeto 'Love it Forward List'? Ele foi criado pela brasileira Carolina Areas e tem uma função maravilhosa. A ideia consiste em uma pequena lista de pessoas dispostas a ajudar alguém que esteja passando por algum momento difícil através de cartas/cartões.

“Quando fico sabendo de alguém que está passando por um momento difícil, eu aciono esta lista de pessoas e todo mundo manda uma lembrança, o que puder. Neste mundo em que se digita mais do que se escreve, o poder de um envelope recheado de palavras amorosas é incrível. Imagina, então, quando são vários?! Um cartão, uma carta, um poema, um desenho, uma foto, uma lembrança… É tão fácil doar amor!” , explica Carol em entrevista ao site Follow the Colours.

Como exemplos de pessoas que receberam o carinho dos membros desse projeto, posso citar uma menininha de 4 anos que perdeu a irmã mais velha. A lista foi acionada e ela recebeu várias coisas: cartinhas, brinquedos, desenhos de outras crianças, um anjinho de decoração. Também houve um caso no Rio, em que a mãe da Carol (que faz parte da lista) soube de uma pessoa que estava com depressão, então ela foi até o prédio dessa pessoa e deixou de presente uma caixa com brigadeiros e um cartão. Se você for como eu, já deve ter imaginado quanta alegria, esperança e amizade não devem sair dessa emocionante iniciativa. 

Como funciona?
Toda vez que a Carol é notificada sobre alguém passando por algum problema, ela aciona a lista e as pessoas podem enviar seus presentes. E pode enviar o que quiser: carta, brinquedo, flores, doces, ou seja, aquilo que você sentir que levará alguma alegria para a pessoa. Não é necessário enviar toda a vez que for notificado, apenas se e quando quiser. Dica legal que peguei no site Another Girl, Another Planet: se for enviar cartinha, o correio tem uma opção muito econômica chamada carta social (clique aqui para saber como funciona).

Nós do Projeto Elas Por Elas já estamos participando. Quer participar também? Muito simples, envie um email com o titulo #LoveitForwardlist para loveitforwardlist@gmail.com e pronto. Chame seus amigos e ajude a espalhar essa ideia maravilhosa por aí!


Nós do Elas por Elas sabemos que ideias movem as pessoas e que as pessoas movem o mundo. Nosso projeto surgiu de uma ideia que veio do nada e devagarzinho, mas que logo foi nos tomando por completo e nos motivando a colocá-la em prática. Nada mais justo que darmos um espacinho aqui para mostrarmos outras iniciativas com as quais nos identificamos.

Para esse fim, lançamos a coluna Ideias d’Elas. Para criar uma maior identificação com nossa própria proposta, os posts dela são sobre projetos idealizados por mulheres. Afinal de contas, como sempre reforçamos, achamos fundamental a valorização da representatividade feminina e seu empoderamento. E nisso se inclui mostrar mulheres que fazem a diferença.

Nem todos os projetos são exclusivamente feministas, mesmo que muitos deles o sejam ao menos em parte. O que queremos são mulheres que façam o bem, que soltem sua voz, que lutem por uma causa, que ajam por um mundo melhor. Enfim, mulheres que pegaram uma ideia e a transformaram em ação.

Se tiver alguma sugestão de tema para falarmos aqui, manda pra gente. Pode ser em comentário, para o email proj.elasporelas@gmail.com ou nas nossas redes sociais!


Verão. O céu mais azul que alguém poderia ver na vida e um sol desejado por 11 entre 10 turistas no litoral. Ironicamente, é logo aqui, no interior. Daqueles dias em que o calor passa do aconchegante, surtindo mais um efeito de vivacidade e animação nos corpos e levando à redução das roupas ao mínimo necessário. Justamente por isso, é essa a época que eu aprendi a odiar com todas as minhas forças. Sim, também odeio o calor e todo o suor que ele propicia, mas comecei a odiar ainda mais as opções que temos para dribla-lo.

À minha volta todos estão felizes e, por que não dizer, radiantes. Não existe outra palavra para definir os efeitos do sol de dezembro sobre banhistas em um sítio. Os corpos em sungas, biquínis e maiôs são razoavelmente variados, exceto por um detalhe: o único gordo é o daquela que os observa, vulgo, eu. Até agora eu me questiono o que estou fazendo aqui, se não me encaixo. Às vezes ainda me questiono como pude acreditar, por um único segundo, que não teria problema em usar um traje de banho de duas peças. E, sim, esse questionamento não me deixa tirar a canga, muito menos pular na piscina.

Nunca mostro mais do que alguns centímetros da minha pele, o que me faz me sentir extremamente exposta agora. Um dos motivos de evitar qualquer tipo de “água empoçada” é a sensação de que ela apenas denuncia ainda mais o meu tamanho. Não, não quero ser um experimento prático de Arquimedes em proporções gigantescas. Também não gosto de como os reflexos e a própria refração deixam minhas formas ainda mais escancaradas e distorcidas. E, claro, um mergulho envolve o famigerado traje de banho. Sendo que as alternativas podem ser ainda piores, já que roupas molhadas são roupas coladas.

Mas eu não fui sempre assim. Não faço ideia de quando eu mudei, mas me lembro de amar a água. O verão até já foi a minha estação preferida! Eu não podia ver uma piscina que já corria para dentro dela, e me tirar era sempre uma tarefa árdua. Eu me sentia melhor ali. Era como se eu fosse mais “eu” na água. Esquecia de todas as preocupações – se é que uma criança “normal” pode ter alguma além das notas do primário –, vivia para aqueles momentos. Eu podia dar braçadas por toda a piscina ou simplesmente relaxar enquanto boiava numa lagoa. Qualquer coisa era melhor ali dentro.

Em especial, eu gostava de mergulhar. Hoje provavelmente eu optaria por essa “modalidade”, porque até que é um meio de me esconder. Mas na época eu simplesmente gostava da sensação. Da sensação e também do desafio de segurar a respiração pelo máximo de tempo possível. Se eu nadava submersa, queria ir sempre o mais longe que conseguisse sem ter de erguer a cabeça. Se ficava parada no lugar, tentava me manter no fundo, sem deixar que a força da água me içasse. Tudo era motivo de tentar ir além, mas, principalmente, de me divertir.

Também gostava de usar biquínis e os escolhia animada e cuidadosamente. Sempre fui mais cheinha, mas nunca me preocupava em escolher o modelo que mais fosse esconder minhas gordurinhas. Se eu achava bonito, era ele que eu pedia para minha mãe. Podia até sair da loja com um maiô preto e bem comportado. Mas, em geral, eu sempre optava pelas cortininhas com babados e frequentemente eram estampas de bolinhas ou listras horizontais. Aquelas que hoje em dia eu vejo e já ouço uma voz na minha cabeça dizendo “isso não valoriza quem tem muito corpo”, vinda da primeira vendedora que me “apresentou” essa frase.

Depois dela vieram vários(as) outros(as). Não apenas de biquínis, mas... Bem, é lógico que essa foi a primeira peça que eu acabei repensando e “adequando às minhas necessidades”. Observando bem a minha expressão e a dos vendedores no momento em que eu fazia minhas escolhas, dava para perceber quem realmente estava sendo agradado. Depois dos 14 anos minha relutância foi reduzida a nada. Comprava cada vez menos roupas de banho, mas, quando isso acontecia, ia direto atrás dos tais “modelos e estampas adequados”. Que, obviamente, eram maiôs pretos e sem graça, que cobrissem o máximo do meu corpo.

Faz uns três ou quatro anos que não compro nenhum. O que estou usando hoje foi emprestado, pela mesma pessoa que me convenceu a vir a essa festa. “É em um sítio, com piscina! É lógico que eu não vou!”. Meu argumento foi o mesmo que nada. Sabe aquelas amigas que a gente conhece há anos e que sempre te vencem pelo cansaço para te convencer? Pois ela é dessas. A diferença é que a gente só se conhecia há cinco dias. Ainda assim, nem minhas amigas de infância foram capazes de surtir o efeito que ela surtiu em mim. Não que elas sejam ruins, elas são maravilhosas. Mas essa nova pessoa me revolucionou como eu nunca pensei que pudesse ser.

Talvez ela leve jeito para mexer com as pessoas. Ou talvez ela só tenha dito tudo que eu precisava ouvir, quando eu precisava ouvir. Ou foi o abraço que ela me deu quando aceitei o convite e o biquíni (pertencente à mãe dela, inclusive), que me fez sentir que eu era capaz e merecia aproveitar o que ela me ofereceu. Só sei que, depois de um tempo pensando, mesmo não estando completamente segura, eu finalmente me mostro. Levanto-me da minha espreguiçadeira, meio trêmula, mas de alguma forma firme. Tiro a canga e exibo meu corpo, sim, mas me mostro de muitas outras formas apenas com esse ato.

Sinto o ar preso nos meus pulmões, mas eu ainda nem sequer cheguei até a piscina. Reunindo a coragem necessária, corro e pulo de uma só vez, sem dar tempo para hesitação. E, no meio daquilo tudo – do impacto, do mergulho, dá água me tocando e me abraçando como a uma velha amiga –, eu me sinto bem. É irônico que eu não soubesse o que eu acabo de constatar. Acho que meu “eu” criança sabia, e eu havia suprimido por todos esses anos. Eu precisava da água. E foi justamente uma submersão nela que me deu coragem de trazer à tona aquilo que eu realmente sou.




Peguei matéria de sonhos, esfarelei-a e, depois de uma fina camada de cola, joguei o pó sobre uma folha de papel. Era lindo. Furta-cor, brilhava e brilhava. Difícil de explicar. Imagine sonhos sobre uma folha de papel. Não dá para descrever, não é? Pois então. Apenas imagine, já basta. Isso porque a matéria de sonhos não é sempre igual. Se você imaginar, assim ela é. A minha, eu imaginava -e via- das cores mais lindas. Você pode imaginá-la verde esmeralda, ou negra com um fugaz brilho púrpura. Ou cinzenta e sem graça. Isso vem de dentro da gente, que não consegue imaginar de outro jeito, porque a matéria de sonhos reflete o que somos. E a matéria de sonhos sobre uma folha de papel é da cor que a gente imagina.

Então... Era lindo, assim que eu a via. Peguei a folha de papel de sonhos, e pendurei no varal para secar. O sol a fazia brilhar ainda mais. Vi os passarinhos se revirando no ninho no alto da mangueira do quintal, quando os reflexos iam bater em seus olhos. Mas logo eles olhavam direto em sua direção, e se encantavam pelas suas luzes. Eu brincava com eles, soprando com força a folha para lá e para cá, aproveitando para acelerar o trabalho que o sol fazia. E quando me cansei fiquei lá, só observando aquele brilho.

Quando a folha secou por completo, saí correndo com ela em mãos, com a segurança de meu pó de sonhos estar bem fixado ao papel pela cola. E a folha voava e voava, espalhando sua luz por todo o quintal, e então por toda a minha casa. Corri para mostrar à minha mãe, que sorriu, com os olhos molhados não sei por que. Depois fui mostrar para meu irmão mais velho, que sorriu também. E achei meu pai por último, que estava com os mesmos olhos tristes de minha mãe, segurando uns papéis que eu não sei de que são. E ele também sorriu. Largou os papeis e foi até minha mãe, que ainda sorria, iluminada pelos meus - ou seria pelos seus?- sonhos.

Não tinha mais a quem mostrar minha folha... Não me deixavam sair de casa sozinha, e meus pais e meu irmão estavam muito ocupados sorrindo. Então fui à cozinha e colei a folha na porta da geladeira. Não ficou bonito. Tirei. Eu queria alguma coisa mais... Então, a ideia. Os sorrisos da minha família estavam mais fracos e menos brilhantes. Corri até o meu quarto e peguei meu estojo escolar de novo. Peguei minha tesoura nova e cortei a folha em alguns pedacinhos.

Guardei um pedaço maior, para quando precisasse, dentro de um bauzinho que minha mãe tinha me dado e que eu nunca tinha usado, esperando ter uma coisa valiosa para guardar ali, a chave. Preguei um pedaço na cabeceira da minha cama, para garantir sonhos bons à noite, e de modo que para sonhar acordado era só olhar para ele de manhã. Os outros pedaços entreguei um para meu pai, um para minha mãe, e outro para meu irmão. Cada um pregou no seu próprio quarto, sempre sorrindo. O último pedacinho peguei e esfarelei de novo. Fui até a janela aberta e soprei o farelo ao vento. Deixei eles voarem livres, para chegarem a quem quiser recebê-los. Um pode ir até você. Basta querer. E saber ver as cores e a beleza da matéria de sonhos.


Você ainda não me conhece. Essa versão de você, a quem esta carta se dirige, ainda não tem a menor ideia do que é ser quem eu sou. As únicas verdades que você conhece são as que você já vivenciou, por isso eu compreendo se você não conseguir aceitar minha carta ainda. Mas eu preciso te avisar: um dia, em outra fase da sua vida, haverá uma outra “você” que compreenderá cada palavra que eu escrevo aqui. No momento, o que quero não é que concorde comigo, nem que sinta empatia por mim. Só o que eu quero é que você saiba que eu te entendo.

Entendo quando você se olha no espelho e se acha desinteressante. Não, você não é. Mas eu sei que você aprendeu a acreditar que essa é a verdade. Te ensinaram isso. E certas coisas, por termos aprendido de uma forma tão aguda, para nós parecem naturais e corretas. Mesmo que elas não sejam, de forma alguma.

Também entendo a forma como você vê o mundo e as pessoas. Sua dificuldade de identificação com algumas coisas e os ideais que você formou ao redor disso. Sei que ainda é difícil para você abraçar as irmãs que agem e pensam de um jeito diferente do seu. Você ainda não vivenciou a sororidade*, por isso eu sei que você pode não ser ainda capaz de empregá-la.

E, acima de tudo, entendo que você não me entenda. Porque eu sei que não foi por mágica que você chegou ao ponto em que está agora, então também não será assim que sairá dele. Tudo ao seu redor construiu sua mente agora, assim como construiu a mente de muitas das nossas irmãs. Eu as entendo.

E justamente por entender tudo isso eu estou aqui, te dando hoje o abraço que ninguém te deu ainda. Não, não é um abraço de autocompaixão, mas de pura e sincera compreensão. Pode parecer inútil fazê-lo agora que você não existe mais (a não ser na memória do que eu fui um dia). Mas, simbolicamente, eu quero que esse abraço se estenda além de você.

Quero que ele chegue a cada uma das meninas que ainda são como eu era quatro anos atrás. Meninas que ainda não receberam esse apoio de uma irmã. E que elas saibam que eu as entendo. E quero que, um dia, elas também possam escrever esta mesma carta a uma versão passada de si mesmas. Porque seguir em frente é aceitar o que já fomos.
Assinado: Você, sabe.


*Sororidade: sentimento de amor e união entre mulheres, formando uma grande irmandade feminina.


Eu não queria fazer um texto meio institucional para iniciar as postagens, mas vi a necessidade de explicar de onde surgiu o projeto, por isso estou aqui. Para começar, acho importante falar sobre o que me motivou a criá-lo.

Basicamente, foi a percepção da carência de duas coisas diretamente ligadas: a de boas personagens femininas em todas as mídias e a de espaço para mulheres criadoras. São dois problemas complementares que, muitas vezes, se tornam causa e consequência um do outro.

Pare para pensar na maioria das personagens femininas em livros, filmes, na TV, enfim, em variados produtos culturais. Quase todos seguem uma linha muito limitada de estereótipos que ou não condizem com a realidade, ou que caminham lado a lado com papeis pré-estabelecidos pela sociedade para nós mulheres obedecermos.

De outro lado, é nítida a falta de mulheres que se destaquem e que desempenhem papéis de poder dentro da indústria criativa. Na literatura, em especial, vemos escritoras principalmente limitadas a escreverem para nichos. E, muitas vezes, as que conseguem superar a barreira do gênero não o fazem sem desafios. 

Pode parecer coisa da época das Irmãs Brontë ter de esconder a própria identidade para poder escrever, mas não podemos esquecer que J.K. Rowling teve de adotar as iniciais na assinatura a pedido da sua editora. O motivo era a ideia de que o público masculino relutaria em ler um livro escrito por uma mulher. E isso em 1997.

Então resolvi criar um projeto que pudesse aliar literatura, representatividade e empoderamento. Pode parecer pretensão demais, mas, para mim, o correto quando se acredita em algo é fazer a sua parte, seja ela grandiosa ou pequena.

Com esse objetivo surgiu a ideia do Elas por Elas. O nome faz referência a esses dois papéis que a mulher representará nos textos aqui postados: criatura e criação. Queremos personagens diversas, descritas e pensadas por nós mesmas. 

Por isso, fazemos um convite. Tem um texto bacana, protagonizado por uma ou mais mulheres? Envie para a gente! Nós postaremos os nossos e, se acharmos que o seu se encaixa na proposta, ele pode aparecer por aqui, também!