Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de Beauvoir nasceu em Paris, França, no dia 9 de janeiro de 1908, era a primogênita de duas irmãs, filha de um casal descendente de famílias tradicionais, porém decadente. Seu pai era o advogado Georges Bertrand de Beauvoir, ex-membro da aristocracia francesa, enquanto a mãe era Françoise Brasseur, membro da alta burguesia francesa.


Recebeu educação católica ( algo que era desprezado por alguns intelectuais da época) e já tinha planos na adolescência de ser uma escritora. Quando jovem, fez exames para o bacharelado em Matemática e Filosofia. Estudou Letras e Filosofia na Universidade de Sorbonne, onde conheceu intelectuais proeminentes como Merleau-Ponty.

Iniciou seus trabalhos como escritora e logo se tornou uma das mais influentes do ocidente. Suas ideias tratavam de questões ligadas à independência feminina e o papel da mulher na sociedade. Sua obra refletia também a luta feminina e as mudanças de papéis estabelecidos, assim como a participação nos movimentos sociais. E esses são ideais encontrados em seu livro mais conhecido e que melhor condensa suas experiências: “O Segundo Sexo” (1949).

Essa grande obra (considerada por muitos como base para estudos feministas) trata da premissa de que a mulher não é o “segundo sexo” ou o “outro” por razões naturais e imutáveis, mas sim por uma série de processos sociais e históricos que criaram esta situação. Toda a sua argumentação gira em torno do questionamento da existência do chamado “eterno feminino”, visto pela sociedade como algo fundamental a qualquer mulher e que as prenderia a uma gama restrita de características e, principalmente, limitações. Com isso em mente, a autora passeia pelas mais diversas áreas do conhecimento em busca de argumentos, com sucesso estrondoso e coerência inquestionável.

Simone publica diversos livros filosóficos e ensaios. Ela se dedica também a registrar suas experiências em extensas obras autobiográficas, que compõem igualmente um retrato da época na qual ela viveu. A autora revela também uma inquietação diante da velhice e da morte, eternizando esta preocupação em livros como Uma Morte Suave, de 1964, e Old Age, de 1970.


As suas obras oferecem uma visão reveladora de sua vida e de seu tempo. Em seu primeiro romance, A convidada (1943), explorou os dilemas existencialistas da liberdade, da ação e da responsabilidade individual, temas que abordou igualmente em romances posteriores como O sangue dos outros (1944) e Os mandarins (1954), obra pela qual recebeu o Prêmio Goncourt e que é considerada a sua obra-prima.


As teses existencialistas, segundo as quais cada pessoa é responsável por si própria, introduzem-se também em uma série de quatro obras autobiográficas, além de Memórias de uma moça bem-comportada (1958), destacam-se A força das coisas (1963) e Tudo dito e feito (1972).

Em A Cerimônia do Adeus, de 1981, ela narra o fim da existência de Sartre, com quem ela sempre manteve um relacionamento aberto e controvertido, pois ambos cultivavam relações com outros parceiros, e compartilhavam as experiências adquiridas neste e em outros campos da existência, em função de um pacto estabelecido entre ambos. O filósofo acreditava que os dois, antes mesmo de constituírem um casal apaixonado, eram escritores; sendo assim, era necessário mergulhar na essência do Homem, o que só seria possível com a vivência de inúmeras experiências. Daí a ideia de viver o máximo possível e trocar entre si as vivências de ambos.

Com a morte de seu companheiro, em 15 de abril de 1980, Simone vê sua saúde se complicar, com o uso abusivo do álcool e das anfetaminas. Ela falece no dia 14 de abril de 1986, aos 78 anos de idade. Cinco dias depois ela foi enterrada no cemitério de Montparnasse, junto ao seu amado Sartre.
Minhas flores e meus espinhos, a alguns dias eu estava participando de uma conversa sobre as diversas formas usadas por machista para atacar as mulheres. O assunto estava tomando um caminho legal, repleto de bons argumentos e tal, até que a palavra misógino foi incluída em um dos comentários, pois logo em seguida uma garota que participava da conversa perguntou: "O que é isso?".

Eu levei um susto quando percebi a duvida dela, porque ela se declarava feminista com veemência, mas ficou claro que ela não sabia exatamente a abrangência dessa luta.

OBVIO que ninguém tem a obrigação de saber de tudo, mas para opinar sobre determinado assunto é necessário, primeiramente,  possuir um conhecimento prévio do mesmo. E é por isso que estou aqui hoje.
Está surgindo aqui no blog a coluna 'Entendendo o feminismo', e vamos inicia-la com um glossário para as leigas e leigos no assunto, um dicionário completo (o mais completo possível) para quem tem alguma duvida sobre esse universo ou quer dar o primeiro passo para se tornar uma miga emponderada.

Vamos lá?

FEMINISMO: é um movimento social, filosófico e político que tem como objetivo direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores patriarcais, baseados em normas de gênero.

MISANDRIA: é o ódio, aversão, preconceito ou desprezo a pessoas do sexo masculino.

MISOGINIA: ódio ou aversão às mulheres.

SEXISMO: se refere à discriminações sexuais e conjuntos de idéias ou ações que privilegiam um indivíduo de determinado sexo (gênero ou orientação sexual).

FILANDRIA: admiração ou amor pelo sexo masculino. Paixão por homens e carinho especial pelo sexo masculino. Gostar de estar na companhia masculina, achar belo o corpo do homem, assim como todo o universo masculino.

SORORIDADE: união poderosa e transformadora entre mulheres, que visa romper com o estigma de rivalidade. A sororidade é importante para fortalecer a ação coletiva do movimento feminista.

EMPODERAMENTO: (conscientização) é um processo de aquisição de ferramentas para combater nossas opressões. É quando nos tornamos mais fortes para desconstruir os papéis que nos impõem e para lutar por equidade.

MACHISMO: é o comportamento, expresso por opiniões e atitudes, de um indivíduo que recusa a igualdade de direitos e deveres entre os gêneros sexuais, favorecendo e enaltecendo o sexo masculino sobre o feminino. Tipo de opressão que a sociedade patriarcal produz contra mulheres. Ele se expressa de diversas formas, das mais evidentes até as mais sutis.

PATRIARCADO: Sistema social baseado no controle dos machos sobre as fêmeas, em que estes ocupam uma posição central. O patriarcado é o sistema no qual o machismo se baseia – é sob ele que se conformaram historicamente os privilégios da classe masculina em relação à classe de mulheres.

FEMINISMO RADICAL (radfem): é uma perspectiva dentro do feminismo que exige um reordenamento radical da sociedade em que a supremacia masculina é eliminada em todos os contextos sociais e econômicos. As feministas radicais procuram abolir o patriarcado, papéis tradicionais de gênero e  acreditam em um comportamento de gênero condicionado.


FEMINISMO INTERSECCIONAL: defende a intersecção entre diversas opressões: de gênero, raça e classe social.

EQUIDADE: igualdade, imparcialidade, respeito à igualdade de direitos.

MANSPLAINING: o termo, que vem do inglês, quer dizer algo como “explicação masculina”. Você logo vai se lembrar de algum exemplo de um conhecido seu, homem, tentando te explicar um assunto que você provavelmente domina mais que ele.

MANTERRUPTING: do inglês “interrupção masculina”, é quando um homem constantemente interrompe uma mulher falando.

GASLIGHTING: que é quando uma pessoa tenta te convencer de que você está louca, paranoica e, com isso, invalidar seus sentimentos. O gaslighting está geralmente associado ao relacionamento abusivo, sendo utilizado pelo parceiro para o controle da mulher.

SLUTSHAMING: quando julgamos uma mulher por ter comportamentos “de vadia”, o que quer que isso signifique. Basicamente, é quando se repudia uma mulher por dispor de sua sexualidade e de seu corpo livremente.

TOKEN: tokenizar é quando uma pessoa, acusada de alguma opressão, já vem com a resposta pronta “Mas eu até tenho amigos que são…”, como uma tentativa de invalidar a crítica que está recebendo.

SILENCIAMENTO: no contexto feminista, é o apagamento da voz das mulheres, através de diversos artifícios, como descreditar suas opiniões ou mesmo através de violência.

REPRESENTATIVIDADE: ato de representar uma minoria e trazer à ela força e formas de seguir com a sua luta.

PROTAGONISMO: relaciona-se à ideia de que a principal voz dentro do feminismo deve ser daquelas a quem ele mais atende, ou seja, as mulheres.

TERF: sigla para "Trans Exclusionary Radical Feminists” (inglês para “Feministas Radicais Trans-Excludentes”). O que isso significa? A ênfase é na exclusão – um ato intencional – e a implicação é que isso é baseado em preconceito e na discriminação propositada.

FEMINISMO LIBERAL (libfem): possui foco na livre iniciativa, que é individual. Para o feminismo liberal, portanto, agimos de acordo com o livre-arbítrio. Exemplos da ideologia das libfem: quando a mulher "consente" não há estupro, quando a mulher intervém no próprio corpo aproximando-o do padrão de beleza hegemônico ela está exercendo liberdade de escolha sobre si.

Ufa! É muita coisa não é? Mas ainda não acabou, nos próximos posts iremos nos aprofundar mais nesses termos para que possamos entende-los melhor. Faremos postagens específicas sobre cada vertente do feminismo e sobre como podemos ser atingidas direta e indiretamente por tudo isso.

Ficou com dúvida sobre alguma coisa ou percebeu que me esqueci de algo? Então deixa nos comentários, assim você ajudara a elevar cada vez mais os nossos conhecimentos.

Beijos e até a próxima.

Ana e João eram vizinhos e amigos. João era popular, e todos o achavam o máximo porque ele lia muito. Toda semana estava com um livro diferente e os amigos adoravam ouvir sobre aquilo. Às vezes ele até gostava de se gabar um pouco quando lia algo muito bom ou conseguia um livro difícil na biblioteca.

Já Ana não tinha uma fama tão boa assim, porque... também lia. Lia muitos livros, sim, mas nem de longe tantos quanto João. Ainda assim, era para ela que as pessoas olhavam torto. “Nossa, já é o segundo livro que ela lê este mês...” “Essa tem mais carimbo da biblioteca que fios de cabelo, haha”.

João não gostava disso, porque via que Ana se sentia mal. Ele até a defendia às vezes, e cortava se algum amigo que já tivesse emprestado um livro pra ela viesse com gracinha. Mas, também, se ela não gostava que falassem, por que tinha que ler tanto?

Mas, como qualquer pessoa, Ana gostava de ler! As pessoas eram rudes, sim, mas ela não achava certo parar de fazer algo que lhe fazia bem só para pararem de falar mal dela. Além do mais, ela sabia que ler faz bem, além de liberar endorfina, o que justifica o fato dela gostar tanto.

Ela e João às vezes conversavam sobre os livros que liam. Ele só não gostava de ouvir muitos detalhes sobre os dela. Número de páginas, nem pensar! Mas ele adorava narrar detalhes tanto das histórias quanto sobre a hora, o local e as circunstâncias em que as leu.

João já tinha ganhado alguns livros de presente. Na verdade, algumas meninas até gostavam quando ele aceitava ou pedia os dela, porque o achavam culto. Mas ele não resistia e acabava lendo outros ao mesmo tempo. E sempre era ele que devolvia os presentes para as donas originais.

Já Ana tinha ganhado um único livro, uma vez. Ela gostava muito dele e o lia exclusivamente, cheia de cuidados e carinho. Chegou até a tirar algumas fotos enquanto lia, no meio de uma leitura muito empolgada. Mas um dia a pessoa que lhe dera o livro o tomou de volta, deixando-a arrasada. 

Sua vida desmoronou de vez quando ela descobriu que ele espalhou para todo mundo que ela tinha deixado seu livro com orelhas e marcas de dedos. Quando ela foi tirar satisfação, ele postou as fotos que, sem ela saber, ele ainda guardava.

Se antes ela estava com fama de destruidora de livros, agora as pessoas se achavam no direito de empurrar para ela todo tipo de leitura horrível. “Afinal de contas, eu já te vi lendo, mesmo”. “Eu sei que você lê qualquer coisa. Toma, lê o meu, vai? Só não encha de orelhas! Haha!”

Sua vida virou um inferno. E João? João não falava mais com ela tanto assim. Que garoto iria querer ser amigo de uma garota que se deixa fotografar lendo, não é mesmo? E ele seguia lá, lendo todos os livros que podia. E até pedia – e recebia – fotos de algumas meninas pra quem ele também emprestava livros.

No fundo, ele sempre quis emprestar um livro para Ana. Na verdade, era para ela que ele queria dar um livro e nunca mais pegar de volta. Mas ele não podia fazer isso, podia? Ele não seria tolo para “fazer o favor” de tentar limpar em vão a imagem de uma menina que lia tantos livros. E ela também tinha tanta bagagem... O livro dele teria que ser muito bom.

Ana precisou mudar de cidade e rezar para que algum outro escândalo literário abafasse o seu. Mas ela sabia que todo mundo já tinha visto as fotos, e que ela teria que suportar. Lamentava mais ainda ter de fazê-lo sozinha, sem o apoio de seus pais, que a olhavam sempre decepcionados, ou de seus amigos, ou de João. Teria que aguentar sozinha. Só não sabia se conseguiria...
 Foto: Bruno Veiga

Um pouco sobre a sua vida

Ana Maria nasceu em Santa Tereza, Rio de Janeiro, em 24 de dezembro de 1941. É casada com o músico Lourenço Baeta, do quarteto Boca Livre, tendo o casal uma filha. Do casamento anterior com o médico Álvaro Machado, Ana Maria teve dois filhos.

Estudou no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no MOMA de Nova York, tendo participado de salões e exposições individuais e coletivas no país e no exterior, enquanto fazia o curso de letras (depois de desistir do curso de Geografia). Formou-se em Letras Neolatinas, em 1964, na então Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, e fez estudos de pós-graduação na UFRJ.

Considerada pela crítica como uma das mais versáteis e completas das escritoras brasileiras contemporâneas, a carioca Ana Maria Machado ocupa a cadeira numero 1 da Academia Brasileira de Letras, que presidiu de 2011 a 2013.

Na sua carreira, os números são generosos. São mais de 40 anos escrevendo, mais de cem livros publicados (dos quais 9 romances e 8 de ensaios), mais de vinte milhões de exemplares vendidos, publicados em vinte idiomas e 26 países. Os prêmios conquistados ao longo da carreira também são muitos, de se perder a conta. Entre eles, 3 Jabutis, o Machado de Assis da ABL em 2001 para conjunto da obra, o Machado de Assis da Biblioteca Nacional para romance, o Casa de Las Americas ( 1980, Cuba), o Hans Christian Andersen, internacional, pelo conjunto de sua obra infantil (2000), entre inúmeros outros.

No final de 1969, depois de ser presa pelo governo militar e ter diversos amigos também detidos,  deixou o Brasil e partiu para o exílio. Na bagagem para a Europa, levava cópias de algumas histórias infantis que estava escrevendo, a convite da revista Recreio.

A volta ao Brasil veio no final de 1972, quando começou a trabalhar no Jornal do Brasil e na Radio Jornal do Brasil, no Correio da Manhã, n’O Globo, e colaborou com as revistas Realidade, IstoÉ e Veja e com os semanários O Pasquim, Opinião e Movimento.

Em 1980, junto com Maria Eugênia Silveira, decidiu abrir a Malasartes, a primeira livraria infantil do Brasil , que co-dirigiu por 18 anos, apostando na inteligência do leitor, na criteriosa seleção dos títulos a partir de um conhecimento acumulado, na liberdade de escolha, na convicção de que ler livro bom é uma tentação irresistível e um direito de toda criança. O sucesso foi tal que, daí a um ano, só no Rio de Janeiro, havia 14 livrarias que buscavam seguir o mesmo modelo.

Algumas de suas obras



Era uma menina linda. A pele era escura e lustrosa, que nem pêlo da pantera quando pula na chuva. Do lado da casa dela morava um coelho que achava a menina a pessoa mais linda que ele já vira na vida. Queria ter uma filha linda e pretinha como ela.



A menina Bel encontra um dia uma foto de sua bisavó Bia, entre as coisas de sua mãe. A partir daí, ela inicia uma relação de muitas descobertas com essa pessoa tão importante na vida de sua família e na da própria. Até que surge uma menina inesperada (esse é o meu preferido).



Como a Alice de Carroll, ela está disposta a explorar o país das maravilhas e experimentar todas as novas sensações. Como Ulisses, ele está disposto a grandes aventuras e a se divertir pelo caminho, mas não perde de vista que um dia vai voltar para casa.

É fato que o papel da mulher na literatura, assim como em muitas outras áreas, não é tão grande e valorizada quanto à dos homens. Citando a literatura nacional como exemplo, é muito mais fácil uma pessoa dizer que já leu um livro do Machado de Assis do que da escritora Ana Maria Machado. Então por que não tentar fazer diferente dessa vez?

No ano de 2014, a escritora e ilustradora inglesa Joanna Walsh propôs que as pessoas decidissem conscientemente ler mais obras escritas por mulheres. A iniciativa no Twitter, onde foi criada a hashtag “#readwomen2014”, teve uma repercussão tão grande e inesperada, que a própria criadora ficou impressionada com a proporção da sua ideia.

Em entrevista a Revista Língua, Joanna contou como foi o inicio de tudo: ‘Eu sinto que o #readwomen2014 na verdade aconteceu comigo. Fiz alguns marcadores de página para enviar como cartões de Ano Novo, em resposta a dois revisores com quem eu estava em contato no Twitter (Mateus Jakubowski nos EUA e Jonathan Gibbs no Reino Unido) que decidiram ler escritoras por um período de tempo definido. A partir daí, fiz o hashtag e publiquei as imagens dos marcadores. O hashtag decolou no Twitter ao ponto de eu ter que iniciar uma conta à parte (@readwomen2014). Nesta conta, hoje, tento reunir tweets sobre mulheres escritoras: recomendações, projetos, notícias, comentários... Eu também comecei a trabalhar em colaborações, o que é emocionante, começando com uma edição só de mulheres da revista Hamish Hamilton, Five Dials (Fivedials.com).’

Mesmo sendo através de um acidente, o #readwomen2014 contemplou iniciativas e ânsias de muita gente, não à toa se espalhou tão rapidamente pela Inglaterra e pelo resto do mundo. No Brasil, foram criadas as hashtags #leiamulheres e #umquartosóseu. O site oficial desse projeto aqui no Brasil, leiamulheres.com.br, tem como objetivo levar a leitura de livros escrito por mulheres para espaços culturais e livrarias através de encontros.
 
O machismo é uma força atuante e dominante na grande maioria das sociedades contemporâneas. E o mundo literário não foge à hegemonia. Não é o fato da alfabetização das mulheres ter ocorrido de forma tardia que as impede de crescer no mundo da literatura, o que nem é aceito como justificativa, mas sim o preconceito. Existem pesquisas comprovando que escritoras ainda são marginalizadas por editoras, revistas literárias e jornais.

Contudo, nós vamos fazer nossa parte para mudar essa realidade. Hoje estamos iniciando a coluna Escritoras Maravilhosas. Através dela vamos apresentar aos nossos leitores a historia de vida e o trabalho de mulheres talentosas, seja ela conhecida ou não. Dessa forma, esperamos conseguir complementar a iniciativa da Joanna Walsh e continuar difundindo a literatura feminina, quebrando as barreiras erguidas pela discriminação.




Eu me sinto mal quando penso que fiquei tão inabilitada (e esgotada) nas últimas semanas e não consegui escrever NADA sobre o turbilhão de coisas que aconteceram pela internet afora. Bombaram as campanhas #primeiroassedio e #vamosfazerumescândalo, fazendo explodir nas redes a temática do “abuso nosso de cada dia”, e #agoraéquesãoelas, dando voz e lugar às mulheres.

Claro que não ia poder faltar bola fora, e os homens lançaram a cagada campanha #meaculpa, onde eles assumiam seus atos de machismo como assédios e outras cositas más. Enfim, isso não é o foco aqui, então se quiser saber mais por que essa ideia é meio bosta, basta pesquisar um pouquinho aí. Quebro o seu galho e indico este link.

Mas vamos ao que realmente interessa, principalmente para esta coluna. Afinal de contas, este é um espaço para ideias DELAS. E boas ideias, claro. No meio de todo esse frisson, acabei descobrindo o aplicativo Sai Pra Lá. A idealizadora é a estudante Catharina Doria, de apenas 17 anos, que preferiu trocar sua viagem de formatura pelo desenvolvimento.

Cansada das constantes situações de abusos e assédios que, infelizmente, nós mulheres estamos acostumadas a enfrentar diariamente, ela contatou alguns conhecidos que entendiam do assunto e apresentou a ideia. O que o aplicativo faz é mapear o assédio, através de denúncias anônimas das usuárias, que marcam alguns detalhes sobre o que, quando e onde elas sofreram.

Com isso em mãos, a intenção é prevenir novos abusos, alertando às mulheres sobre as situações de risco e pressionando as autoridades a tomarem alguma medida. Buscando aumentar o alcance do projeto, foi criada uma campanha no Kickante, que já alcançou 123% da meta. Você pode baixar o aplicativo clicando aqui.



A xícara de café esfriava, repousada sobre uma das cadeiras do auditório, enquanto a garrafa d’água em sua mão esquentava. Já era a quinta vez que o texto era repassado, e ninguém ficava satisfeito. Estavam todos cansados, permaneciam ali há horas, mas o resultado não estava bom. Mais que ninguém, Miriam sentia a ansiedade a dominando cada vez mais. Era por causa dela que não podiam ir embora, que tinham de ensaiar tantas e tantas vezes.

Os colegas atores não demonstravam raiva ou a culpavam, mas ela já se sentia mal por conta própria. Os gritos e reprimendas do diretor não passavam de uma ajuda pro serviço. Ela não conseguia entender. Nunca tivera tanta dificuldade para assumir um papel. Já fizera personagens mais velhas que ela, mais jovens, loucas, putas, santas, professoras, até outras artistas. Mas justo aquela ela não conseguia encarnar.

Qual a grande dificuldade? Ela não conseguia decifrá-la. Era uma mulher comum, e já tinha interpretado mulheres comuns antes. Uma personagem intensa, mas isso também não era difícil para ela. Não era misteriosa, não era elaborada demais, mas era diferente. Por que? Por que ela não conseguia entendê-la?

- Afinal de contas, Hélio, qual a motivação dessa bendita personagem? – perguntou, exasperada, depois de um dos acessos do diretor.

Ela já não sabia mais aonde ir para procurar por inspiração. Sua voz já estava mais fraca e se esquecera de tomar água há pelo menos duas horas. A garrafa em sua mão fazia mais o papel de distração para o próprio nervosismo. Se render daquela forma, fazendo uma pergunta que ela sabia que podia desencadear de vez a fúria de Hélio, era uma medida desesperada. Como imaginado, ele respirou fundo, mas não conteve a ferocidade de seus berros:

- Você não é uma atriz? O papel é seu! Descubra!

Descubra. A palavra ressoou em sua mente. Se o resto daquela fala era uma chicotada em sua moral, aquela palavra final era o álcool jogado sobre as feridas. Descobrir como? Já era a última semana antes da estreia da peça, e ela ainda não conseguira descobrir absolutamente nada sobre a motivação da personagem. O que mais ela podia fazer? Estava tão cansada...

Não podia seguir daquele jeito. Com esforço para se manter firme, apesar dos contínuos gritos do diretor, pediu licença e foi para o camarim, sem esperar resposta. Tremendo de cansaço e apreensão, enfiou a cara na pia. Deixou a torneira escorrer por uns segundos e aproveitou para beber um pouco, dali mesmo. Estava no seu limite. Os gritos do diretor, os olhares escrupulosos dos colegas, suas próprias dúvidas, tudo girava dentro de seu cérebro como a água daquele ralo. Mas, ao contrário do conteúdo da pia, o da sua cabeça não se esvaía.

Levantou-se, deu alguns passos para trás e sentou-se no chão. Pensou rapidamente no texto, tentando não se focar em nenhuma cena ou fala específica. Tinha de haver uma resposta ali, ela só não procurara direito. Todos tem uma motivação, era impossível que aquela mulher fictícia não tivesse. Parou, no entanto, ao pensar em si mesma. E ela? Qual era sua motivação?

Lembrou-se da primeira vez que fez uma aula de teatro. Criança, tímida, desde aquela época já não era mera diversão, mas também um meio de ser mais extrovertida. Cresceu, adolesceu, e continuava atuando. Era bom fazer uma manutenção, e se o medo de falar em público voltasse? Mas ficava um tempo sem fazer teatro e ele não voltava. Não era pela timidez.

Época de vestibular, escolheu artes cênicas. Era só o que sabia fazer, afinal. Não. Pensava assim, mas no fundo sabia que era mentira. Sabia escrever, era boa em línguas, em história, até em biologia. Mas era só o teatro que ela amava. Escolheu a profissão, o teatro, por amor. Gostava de ser e vivenciar o outro, podendo voltar a ser ela mesma quando saía do palco. Sentia prazer em mexer com as emoções do público, e via na arte a obrigação de fazer os outros pensarem. E, principalmente, gostava de fazê-lo descobrindo mais sobre seus personagens. Era isso que a motivava.

Por fim, percebeu que o mesmo motivo que a levara até aqueles palcos era o que a fazia bater tanto com a cabeça na parede para entender uma pessoa que nem existia. Era o que sempre fazia, tentava conhecer o outro. “Afinal de contas, se sou eu essa personagem, por que ela não pode ser motivada pela minha vontade de vivê-la?”, pensou.

Não estava completamente segura, mas voltou para junto dos colegas mais tranquila – e hidratada. Repassaram a cena mais umas duas vezes, e finalmente começaram a ficar satisfeitos. Não estava perfeito, é verdade, mas já era algo. Ao menos, podiam ir para casa e descansar. E, mesmo não estando perfeita, Miriam não pode deixar de sentir um certo orgulho da própria atuação. Acreditava que, pela primeira vez, ela realmente sabia o que motivava sua personagem. Ela mesma.

Queria ser otimista o bastante para dizer que essa frase nunca foi tão verdadeira (Foto: internet/reprodução)
Depois de todo o bafafá que o tema da redação do Enem causou ontem, eu estava determinada a fazer textão sobre o assunto para postar aqui no blog, mesmo que só no dia seguinte. Talvez em parte seja pelo ressentimento de não estar lá, fazendo essa prova só pra sambar na mesa examinadora com minhas palavras. Mas o dia seguinte chegou e passou, e me vieram duas desmotivações: o medo do assunto já ter esfriado e o de que tudo já tenha sido dito. Mas, ei! Aí mesmo é que eu preciso escrever, aí é que não podemos deixar o assunto esfriar e muito menos que o que já foi dito cale o que nós ainda temos a dizer. Mesmo que seja para reforçar o coro dos que já se manifestaram em polvorosa na noite de domingo, mesmo que as nossas vozes não se destaquem no meio dessa multidão: precisamos falar.

Indo ao ponto, então. Para quem estava numa bolha no domingo ou curtiu loucamente o dia mais badalado da semana (só que não), uma contextualização. Esse fim de semana houve a prova do Enem, que trouxe na redação o tema "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". Só isso foi suficiente para que a internet enlouquecesse. O tema foi imensamente bem-recebido e comemorado pelos quatro cantos, pelos mais variados motivos. O principal (e que menos me entusiasma, na verdade) foi a chance de se detectar os “machistinhas” de plantão, que provavelmente acabariam violando direitos humanos em seus textos, o que resultaria em desclassificação imediata.

No entanto, eu não posso ser tão otimista assim, já que eu sei que machista também sabe mentir. Os que seriam capazes de fazer uma argumentação coerente em qualquer outro tema podem muito bem ocultar qualquer caráter desrespeitoso na redação, enquanto os demais provavelmente já não iriam bem na prova, mesmo. Provavelmente apenas uma minoria deve vir a ter seus textos desqualificados assim.

Mas isso não impede que eu comemore, e muito, algo que para mim é muito maior e mais provável que tirar machista da Universidade. Trazer uma redação com um tema social desse calibre escancara ainda mais sua relevância, ainda mais na fase atual, quando tantos propagam a falsa ideia de que nós já alcançamos tudo que tínhamos para alcançar. Quando falo nós tento ser mais ampla, pois não é apenas a luta feminista que vem ouvindo que não é mais necessária. Mas como é o foco no momento, voltemos a ela.

Como já disse ao compartilhar uma publicação na fanpage no Facebook, esse tema nos traz duas grandes esperanças, parecidas, mas principalmente complementares. De um lado, se forem bem avaliadas (e não aprovarem outra receita de Miojo), as redações podem servir como parâmetro para medir o preparo dos candidatos para entenderem um tema do qual muito se fala, mas do qual pouco se tira. As discussões de internet estão aí para demonstrar que o feminismo vem crescendo de forma linda, mas que seus antagonistas também vêm surgindo de todo canto com argumentações vazias.

Do outro lado está o alerta definitivo para nossos professores e escolas entenderem finalmente que temas de relevância social são também relevantes para a formação dos estudantes. Mesmo que de modo forçado, esses assuntos terão de entrar na pauta das conversas em sala de aula. Até as instituições que focam apenas na prova do Enem e deixam a formação e responsabilidade social de lado devem acabar percebendo que, se quiserem manter seus status, terão de falar sobre minorias sim, senhor. Não são bons motivos, mas já é alguma coisa. E só de saber que os jovens estão pensando sobre temas sociais eu já me sinto muito satisfeita. Porque é a partir do pensamento e das ideias que começam a surgir as revoluções.

Agora vamos de bom humor? haha

Daqui pra frente o Enem vai ser diferente
Você tem que aprender a ser gente
Machista não passa em mais nada! Nada!
(Foto: Reprodução/Facebook)

Meu texto de hoje é sobre a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. Pois é, meus amores, o Enem fez a alegria de muitas pessoas (e o desespero de outras) com o tema da redação deste ano. E o nosso blog não deixaria de tocar nesse assunto de tamanha importância.


Como fui uma das milhões de pessoas que participaram de camarote (esse foi meu terceiro Enem), já informo a todos que meus lábios se abriram em um radiante sorriso quando me deparei com o tema. Imediatamente, milhões de palavras surgiram em minha mente, afinal, há muito a ser dito sobre. É claro que a ideia de que o assunto já deu o que tinha que dar está sendo considerada, mas é por isso que eu escolhi publicar hoje. Da mesma forma que a violência contra a mulher é ignorada dia após dia, muitos também a desconsideraram no dia de ontem, atitude que não devemos permitir.

Vamos deixar claro que não estou falando apenas dos machistas que abaixaram o topete ao redigir a redação, mentindo sobre apoiar a causa, mas também dos que se mantiveram estúpidos machões e defenderam que a culpa é da mulher - o que, a proposito, resultará em anulação imediata (J). Quero que percebam a importância social e educacional em torno desse assunto, ok? Ficou claro que a forma automática das quais escolas fazem uso para ensinar está caindo por terra, pois quanto menos envolvidos nesse tipo de questão menor será o preparo para participar de vestibulares, Enem, carreira, vida social, etc.

Acredito que conscientização é chave para melhorar um monte de coisas, mas infelizmente ela não funciona em todos. Talvez, se esse tipo de repercussão surgir com maior frequência, as pessoas passem a dar a devida atenção aos problemas sociais.


Olha, cara, eu tô de boa com esse seu desejo, sabe? É sério, eu não vou brigar por esse motivo. Na verdade, eu até aceito que você tenha suas vontades e preferências. Tranquilo se você curte minas assim ou assado, e que não queira nem passar perto das que não são do estilo que combina com o seu. Olha só, parece que a evolução até explica que você procure sempre pela bunda mais redondinha e pelo peito mais empinado, e eu entendo isso.

Só que, talvez, eu simplesmente não queira ser uma mulher ideal. Sei lá, não tô no clima pra isso, sabe? Não faço questão nenhuma de caber dentro das suas preferências. Fui feita pra mim mesma, não pra você, e estou feliz assim. Olha só, que curioso, eu só não quero que você me queira.

Tudo bem então se eu sou gorda demais, magra demais, alta demais, baixa demais, preta demais, pálida demais, velha demais, nova demais, independente demais, insegura demais, rica demais, pobre demais, mulher demais pra você. Porque talvez eu simplesmente não seja pra você.

De todas as mulheres que não são perfeitas, mas reais

(Logo do projeto Love it Forward List)
Você conhece o projeto 'Love it Forward List'? Ele foi criado pela brasileira Carolina Areas e tem uma função maravilhosa. A ideia consiste em uma pequena lista de pessoas dispostas a ajudar alguém que esteja passando por algum momento difícil através de cartas/cartões.

“Quando fico sabendo de alguém que está passando por um momento difícil, eu aciono esta lista de pessoas e todo mundo manda uma lembrança, o que puder. Neste mundo em que se digita mais do que se escreve, o poder de um envelope recheado de palavras amorosas é incrível. Imagina, então, quando são vários?! Um cartão, uma carta, um poema, um desenho, uma foto, uma lembrança… É tão fácil doar amor!” , explica Carol em entrevista ao site Follow the Colours.

Como exemplos de pessoas que receberam o carinho dos membros desse projeto, posso citar uma menininha de 4 anos que perdeu a irmã mais velha. A lista foi acionada e ela recebeu várias coisas: cartinhas, brinquedos, desenhos de outras crianças, um anjinho de decoração. Também houve um caso no Rio, em que a mãe da Carol (que faz parte da lista) soube de uma pessoa que estava com depressão, então ela foi até o prédio dessa pessoa e deixou de presente uma caixa com brigadeiros e um cartão. Se você for como eu, já deve ter imaginado quanta alegria, esperança e amizade não devem sair dessa emocionante iniciativa. 

Como funciona?
Toda vez que a Carol é notificada sobre alguém passando por algum problema, ela aciona a lista e as pessoas podem enviar seus presentes. E pode enviar o que quiser: carta, brinquedo, flores, doces, ou seja, aquilo que você sentir que levará alguma alegria para a pessoa. Não é necessário enviar toda a vez que for notificado, apenas se e quando quiser. Dica legal que peguei no site Another Girl, Another Planet: se for enviar cartinha, o correio tem uma opção muito econômica chamada carta social (clique aqui para saber como funciona).

Nós do Projeto Elas Por Elas já estamos participando. Quer participar também? Muito simples, envie um email com o titulo #LoveitForwardlist para loveitforwardlist@gmail.com e pronto. Chame seus amigos e ajude a espalhar essa ideia maravilhosa por aí!


Nós do Elas por Elas sabemos que ideias movem as pessoas e que as pessoas movem o mundo. Nosso projeto surgiu de uma ideia que veio do nada e devagarzinho, mas que logo foi nos tomando por completo e nos motivando a colocá-la em prática. Nada mais justo que darmos um espacinho aqui para mostrarmos outras iniciativas com as quais nos identificamos.

Para esse fim, lançamos a coluna Ideias d’Elas. Para criar uma maior identificação com nossa própria proposta, os posts dela são sobre projetos idealizados por mulheres. Afinal de contas, como sempre reforçamos, achamos fundamental a valorização da representatividade feminina e seu empoderamento. E nisso se inclui mostrar mulheres que fazem a diferença.

Nem todos os projetos são exclusivamente feministas, mesmo que muitos deles o sejam ao menos em parte. O que queremos são mulheres que façam o bem, que soltem sua voz, que lutem por uma causa, que ajam por um mundo melhor. Enfim, mulheres que pegaram uma ideia e a transformaram em ação.

Se tiver alguma sugestão de tema para falarmos aqui, manda pra gente. Pode ser em comentário, para o email proj.elasporelas@gmail.com ou nas nossas redes sociais!


Verão. O céu mais azul que alguém poderia ver na vida e um sol desejado por 11 entre 10 turistas no litoral. Ironicamente, é logo aqui, no interior. Daqueles dias em que o calor passa do aconchegante, surtindo mais um efeito de vivacidade e animação nos corpos e levando à redução das roupas ao mínimo necessário. Justamente por isso, é essa a época que eu aprendi a odiar com todas as minhas forças. Sim, também odeio o calor e todo o suor que ele propicia, mas comecei a odiar ainda mais as opções que temos para dribla-lo.

À minha volta todos estão felizes e, por que não dizer, radiantes. Não existe outra palavra para definir os efeitos do sol de dezembro sobre banhistas em um sítio. Os corpos em sungas, biquínis e maiôs são razoavelmente variados, exceto por um detalhe: o único gordo é o daquela que os observa, vulgo, eu. Até agora eu me questiono o que estou fazendo aqui, se não me encaixo. Às vezes ainda me questiono como pude acreditar, por um único segundo, que não teria problema em usar um traje de banho de duas peças. E, sim, esse questionamento não me deixa tirar a canga, muito menos pular na piscina.

Nunca mostro mais do que alguns centímetros da minha pele, o que me faz me sentir extremamente exposta agora. Um dos motivos de evitar qualquer tipo de “água empoçada” é a sensação de que ela apenas denuncia ainda mais o meu tamanho. Não, não quero ser um experimento prático de Arquimedes em proporções gigantescas. Também não gosto de como os reflexos e a própria refração deixam minhas formas ainda mais escancaradas e distorcidas. E, claro, um mergulho envolve o famigerado traje de banho. Sendo que as alternativas podem ser ainda piores, já que roupas molhadas são roupas coladas.

Mas eu não fui sempre assim. Não faço ideia de quando eu mudei, mas me lembro de amar a água. O verão até já foi a minha estação preferida! Eu não podia ver uma piscina que já corria para dentro dela, e me tirar era sempre uma tarefa árdua. Eu me sentia melhor ali. Era como se eu fosse mais “eu” na água. Esquecia de todas as preocupações – se é que uma criança “normal” pode ter alguma além das notas do primário –, vivia para aqueles momentos. Eu podia dar braçadas por toda a piscina ou simplesmente relaxar enquanto boiava numa lagoa. Qualquer coisa era melhor ali dentro.

Em especial, eu gostava de mergulhar. Hoje provavelmente eu optaria por essa “modalidade”, porque até que é um meio de me esconder. Mas na época eu simplesmente gostava da sensação. Da sensação e também do desafio de segurar a respiração pelo máximo de tempo possível. Se eu nadava submersa, queria ir sempre o mais longe que conseguisse sem ter de erguer a cabeça. Se ficava parada no lugar, tentava me manter no fundo, sem deixar que a força da água me içasse. Tudo era motivo de tentar ir além, mas, principalmente, de me divertir.

Também gostava de usar biquínis e os escolhia animada e cuidadosamente. Sempre fui mais cheinha, mas nunca me preocupava em escolher o modelo que mais fosse esconder minhas gordurinhas. Se eu achava bonito, era ele que eu pedia para minha mãe. Podia até sair da loja com um maiô preto e bem comportado. Mas, em geral, eu sempre optava pelas cortininhas com babados e frequentemente eram estampas de bolinhas ou listras horizontais. Aquelas que hoje em dia eu vejo e já ouço uma voz na minha cabeça dizendo “isso não valoriza quem tem muito corpo”, vinda da primeira vendedora que me “apresentou” essa frase.

Depois dela vieram vários(as) outros(as). Não apenas de biquínis, mas... Bem, é lógico que essa foi a primeira peça que eu acabei repensando e “adequando às minhas necessidades”. Observando bem a minha expressão e a dos vendedores no momento em que eu fazia minhas escolhas, dava para perceber quem realmente estava sendo agradado. Depois dos 14 anos minha relutância foi reduzida a nada. Comprava cada vez menos roupas de banho, mas, quando isso acontecia, ia direto atrás dos tais “modelos e estampas adequados”. Que, obviamente, eram maiôs pretos e sem graça, que cobrissem o máximo do meu corpo.

Faz uns três ou quatro anos que não compro nenhum. O que estou usando hoje foi emprestado, pela mesma pessoa que me convenceu a vir a essa festa. “É em um sítio, com piscina! É lógico que eu não vou!”. Meu argumento foi o mesmo que nada. Sabe aquelas amigas que a gente conhece há anos e que sempre te vencem pelo cansaço para te convencer? Pois ela é dessas. A diferença é que a gente só se conhecia há cinco dias. Ainda assim, nem minhas amigas de infância foram capazes de surtir o efeito que ela surtiu em mim. Não que elas sejam ruins, elas são maravilhosas. Mas essa nova pessoa me revolucionou como eu nunca pensei que pudesse ser.

Talvez ela leve jeito para mexer com as pessoas. Ou talvez ela só tenha dito tudo que eu precisava ouvir, quando eu precisava ouvir. Ou foi o abraço que ela me deu quando aceitei o convite e o biquíni (pertencente à mãe dela, inclusive), que me fez sentir que eu era capaz e merecia aproveitar o que ela me ofereceu. Só sei que, depois de um tempo pensando, mesmo não estando completamente segura, eu finalmente me mostro. Levanto-me da minha espreguiçadeira, meio trêmula, mas de alguma forma firme. Tiro a canga e exibo meu corpo, sim, mas me mostro de muitas outras formas apenas com esse ato.

Sinto o ar preso nos meus pulmões, mas eu ainda nem sequer cheguei até a piscina. Reunindo a coragem necessária, corro e pulo de uma só vez, sem dar tempo para hesitação. E, no meio daquilo tudo – do impacto, do mergulho, dá água me tocando e me abraçando como a uma velha amiga –, eu me sinto bem. É irônico que eu não soubesse o que eu acabo de constatar. Acho que meu “eu” criança sabia, e eu havia suprimido por todos esses anos. Eu precisava da água. E foi justamente uma submersão nela que me deu coragem de trazer à tona aquilo que eu realmente sou.




Peguei matéria de sonhos, esfarelei-a e, depois de uma fina camada de cola, joguei o pó sobre uma folha de papel. Era lindo. Furta-cor, brilhava e brilhava. Difícil de explicar. Imagine sonhos sobre uma folha de papel. Não dá para descrever, não é? Pois então. Apenas imagine, já basta. Isso porque a matéria de sonhos não é sempre igual. Se você imaginar, assim ela é. A minha, eu imaginava -e via- das cores mais lindas. Você pode imaginá-la verde esmeralda, ou negra com um fugaz brilho púrpura. Ou cinzenta e sem graça. Isso vem de dentro da gente, que não consegue imaginar de outro jeito, porque a matéria de sonhos reflete o que somos. E a matéria de sonhos sobre uma folha de papel é da cor que a gente imagina.

Então... Era lindo, assim que eu a via. Peguei a folha de papel de sonhos, e pendurei no varal para secar. O sol a fazia brilhar ainda mais. Vi os passarinhos se revirando no ninho no alto da mangueira do quintal, quando os reflexos iam bater em seus olhos. Mas logo eles olhavam direto em sua direção, e se encantavam pelas suas luzes. Eu brincava com eles, soprando com força a folha para lá e para cá, aproveitando para acelerar o trabalho que o sol fazia. E quando me cansei fiquei lá, só observando aquele brilho.

Quando a folha secou por completo, saí correndo com ela em mãos, com a segurança de meu pó de sonhos estar bem fixado ao papel pela cola. E a folha voava e voava, espalhando sua luz por todo o quintal, e então por toda a minha casa. Corri para mostrar à minha mãe, que sorriu, com os olhos molhados não sei por que. Depois fui mostrar para meu irmão mais velho, que sorriu também. E achei meu pai por último, que estava com os mesmos olhos tristes de minha mãe, segurando uns papéis que eu não sei de que são. E ele também sorriu. Largou os papeis e foi até minha mãe, que ainda sorria, iluminada pelos meus - ou seria pelos seus?- sonhos.

Não tinha mais a quem mostrar minha folha... Não me deixavam sair de casa sozinha, e meus pais e meu irmão estavam muito ocupados sorrindo. Então fui à cozinha e colei a folha na porta da geladeira. Não ficou bonito. Tirei. Eu queria alguma coisa mais... Então, a ideia. Os sorrisos da minha família estavam mais fracos e menos brilhantes. Corri até o meu quarto e peguei meu estojo escolar de novo. Peguei minha tesoura nova e cortei a folha em alguns pedacinhos.

Guardei um pedaço maior, para quando precisasse, dentro de um bauzinho que minha mãe tinha me dado e que eu nunca tinha usado, esperando ter uma coisa valiosa para guardar ali, a chave. Preguei um pedaço na cabeceira da minha cama, para garantir sonhos bons à noite, e de modo que para sonhar acordado era só olhar para ele de manhã. Os outros pedaços entreguei um para meu pai, um para minha mãe, e outro para meu irmão. Cada um pregou no seu próprio quarto, sempre sorrindo. O último pedacinho peguei e esfarelei de novo. Fui até a janela aberta e soprei o farelo ao vento. Deixei eles voarem livres, para chegarem a quem quiser recebê-los. Um pode ir até você. Basta querer. E saber ver as cores e a beleza da matéria de sonhos.


Você ainda não me conhece. Essa versão de você, a quem esta carta se dirige, ainda não tem a menor ideia do que é ser quem eu sou. As únicas verdades que você conhece são as que você já vivenciou, por isso eu compreendo se você não conseguir aceitar minha carta ainda. Mas eu preciso te avisar: um dia, em outra fase da sua vida, haverá uma outra “você” que compreenderá cada palavra que eu escrevo aqui. No momento, o que quero não é que concorde comigo, nem que sinta empatia por mim. Só o que eu quero é que você saiba que eu te entendo.

Entendo quando você se olha no espelho e se acha desinteressante. Não, você não é. Mas eu sei que você aprendeu a acreditar que essa é a verdade. Te ensinaram isso. E certas coisas, por termos aprendido de uma forma tão aguda, para nós parecem naturais e corretas. Mesmo que elas não sejam, de forma alguma.

Também entendo a forma como você vê o mundo e as pessoas. Sua dificuldade de identificação com algumas coisas e os ideais que você formou ao redor disso. Sei que ainda é difícil para você abraçar as irmãs que agem e pensam de um jeito diferente do seu. Você ainda não vivenciou a sororidade*, por isso eu sei que você pode não ser ainda capaz de empregá-la.

E, acima de tudo, entendo que você não me entenda. Porque eu sei que não foi por mágica que você chegou ao ponto em que está agora, então também não será assim que sairá dele. Tudo ao seu redor construiu sua mente agora, assim como construiu a mente de muitas das nossas irmãs. Eu as entendo.

E justamente por entender tudo isso eu estou aqui, te dando hoje o abraço que ninguém te deu ainda. Não, não é um abraço de autocompaixão, mas de pura e sincera compreensão. Pode parecer inútil fazê-lo agora que você não existe mais (a não ser na memória do que eu fui um dia). Mas, simbolicamente, eu quero que esse abraço se estenda além de você.

Quero que ele chegue a cada uma das meninas que ainda são como eu era quatro anos atrás. Meninas que ainda não receberam esse apoio de uma irmã. E que elas saibam que eu as entendo. E quero que, um dia, elas também possam escrever esta mesma carta a uma versão passada de si mesmas. Porque seguir em frente é aceitar o que já fomos.
Assinado: Você, sabe.


*Sororidade: sentimento de amor e união entre mulheres, formando uma grande irmandade feminina.