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Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio

Eu não sabia se eu deveria mesmo escrever sobre esse assunto na coluna, porque ele está um pouco passado e já foi falado inúmeras vezes. Muitos dos vídeos, textos e comentários feitos, inclusive, continham quase tudo que eu penso sobre. Mas eu sinto que se eu não fizer isso eu estarei sendo omissa, então vou tentar passar minha visão mais pessoal.

À época das notícias sobre a agressão de Johnny Depp à ex-mulher Amber Heard, eu cheguei a elaborar um textinho para postar aqui sobre o assunto, mas por transtornos pessoais acabei não conseguindo. Nele eu falava que se tivesse que escolher um dos dois para oferecer meu benefício da dúvida, seria ela.

Isso não apenas porque “mulheres são sempre inocentes” ou qualquer coisa do tipo. Há evidências contra ele mas não provas concretas, coisa que dificilmente teremos dado o acordo feito entre os dois. Mas isso leva também a não haver provas da inocência dele (e consequente mentira dela). 

Meu benefício fica com a Amber simplesmente pela observação de padrões. Como o fato de ela ter retirado as acusações e aceitado um acordo, comum nesses casos (salvo proporções), ainda mais quando o homem é mais influente que a mulher. E o descrédito pelas acusações é um dos motivos que fazem investigações de crimes contra a mulher não irem adiante. Outro padrão que se repete é a invariável culpabilização da vítima. Cheguei a ler recentemente ela sendo julgada por ter retirado a ação, tendo mentido ou não (o que demonstra tanta falta de empatia que eu mal consigo expressar). 

Finalmente, há o fator importância que eu já citei. Ele, por ser homem, já tende a ter a imagem mais protegida pela sociedade. Winona Ryder foi pega roubando em lojas e sua carreira nunca mais foi a mesma. Mel Gibson, entre outras ações deploráveis, bateu na ex-namorada e segue renomado. Sendo Depp alguém mais expressivo dentro do meio em que eles estão (e tendo uma legião de fãs absurdamente fiéis, por sinal), isso se potencializa. A imagem de Amber é que fica manchada, tendo mentido ou não. Ela inclusive correu risco de perder seu papel no filme da Liga da Justiça à época das denúncias.

Bojack Horseman. Imagem: O Filme é Legal, Mas

Depois de explicar minha posição sobre o caso em si, é hora de falar sobre a escalação. Harry Potter é uma coisa tão ligada à minha vida e à minha história que eu nem lembro mais como eu era antes de conhecer a saga. Fui apresentada a ela aos 8 anos, quando minha tia me indicou o primeiro livro – “já que você gosta tanto de ler, tá saindo filme dele agora” –, e depois disso não parei mais. O fato de ter tido contato com ela tão jovem ajuda a mesclá-la ao que eu sou, mas não dá para negar que é uma obra com potencial transformador.

Os livros falam sobre tolerância, respeito, amizade, coragem e outros valores que são essenciais para qualquer ser humano. Valores que, por mais óbvios que pareçam, não são todos tão facilmente encontrados assim. Caso contrário, não existiria tanta injustiça e opressão no mundo, e nem este blog em que agora escrevo precisaria existir. Mas há pessoas que sabem a importância dessas questões e me atrevo a dizer que algumas delas aprenderam isso com Harry Potter. Não sem bases: leitores de Harry Potter são menos propensos a serem preconceituosos, segundo estudos



J.K. Rowling esteve em um relacionamento abusivo antes da fama e chegou a ser agredida pelo ex-marido. Este fato foi uma parte triste e importante da sua trajetória, tendo inclusive contribuído para sua depressão, que mais tarde inspiraria a criação dos Dementadores (e quem os conhece e/ou teve a doença sabe o quanto ambos podem ser terríveis).

É por esses motivos que para mim (e para uma boa parcela do público) a saga é simplesmente incompatível com a presença do Johnny Depp, ainda mais em um papel de destaque como Grindelwald. Eu entendo que contratos são complicados e que as gravações provavelmente ocorreram antes das acusações, mas por bem menos atores são substituídos. Jammie Waylett, que interpretou Crabbe, não retomou o papel no último filme por ter sido condenado por porte de drogas. Para seu azar, Waylett nunca teve o renome de Depp.

Isso, sem falar que o diretor David Yates defendeu a escolha amenizando o acontecimento e, em outras palavras, reforçando a ideia de que “vida pessoal não interfere em vida profissional”. Ou seja, dando a entender que Depp seria escolhido de todo modo. Como eu citei acima, isso seria verdade se substituições não fossem feitas apenas pela vida pessoal dos atores, e se a imagem de um filme não estivesse intrinsecamente ligada à imagem de sua equipe. 



Seguir dando destaque e defendendo um ator acusado de violência contra a mulher é reforçar a sensação de impunidade com a qual nós já estamos tão acostumadas a conviver. Todas as nossas ações são políticas, absolutamente tudo. Por que uma produção audiovisual de amplo alcance e influência, que inclusive prega ideais de justiça, não o seria?

Mais um ponto que me incomoda: o fato de eu rejeitar a escolha por motivos ideológicos leva as pessoas a descartarem todos os meus outros motivos. MESMO se Johnny Depp não estivesse envolvido nessas polêmicas eu não teria gostado. O fato de ele ser americano e o personagem alemão (ou coisa do tipo) é o menor dos problemas (mas é um deles).

Eu já fui fã dele, e costumava defender que, apesar dos trabalhos ruins, ele também podia ser muito bom. Mas eu não era cega e sabia que quanto mais “pop” era o filme, pior era sua atuação. E qualquer coisa ligada ao nome Harry Potter é inegavelmente pop. Ir de um vilão tão bem interpretado como o Voldemort de Ralph Fiennes para um Grindewald muito provavelmente caricato não me agrada nem um pouco.

E os dois aspectos nem precisam ser totalmente desassociados. Yates defendeu a escolha com base na ideia de que Depp seria o melhor para o papel. O fato dele não ser só dá mais força para a ideia de que não importa nem se a pessoa está envolvida em um caso de agressão, nem se ele não é tão essencial assim para a trama: ele vai seguir impune.

Por fim, lembro que sim, eu realmente acredito na ressocialização e recuperação das pessoas, mas isso não significa que eu deva aceitar impunidade. E é isso que esse caso GRITA em todos os seus aspectos. Sem falar que em menos de um ano após as denúncias Depp já está sendo não apenas defendido, mas também vangloriado e recebendo aplausos. E, meus amigos, se isso não é um belo tapa na cara de qualquer pessoa que luta pelo fim da violência contra a mulher e sua banalização, eu não sei mais o que é.



Eu me sinto mal quando penso que fiquei tão inabilitada (e esgotada) nas últimas semanas e não consegui escrever NADA sobre o turbilhão de coisas que aconteceram pela internet afora. Bombaram as campanhas #primeiroassedio e #vamosfazerumescândalo, fazendo explodir nas redes a temática do “abuso nosso de cada dia”, e #agoraéquesãoelas, dando voz e lugar às mulheres.

Claro que não ia poder faltar bola fora, e os homens lançaram a cagada campanha #meaculpa, onde eles assumiam seus atos de machismo como assédios e outras cositas más. Enfim, isso não é o foco aqui, então se quiser saber mais por que essa ideia é meio bosta, basta pesquisar um pouquinho aí. Quebro o seu galho e indico este link.

Mas vamos ao que realmente interessa, principalmente para esta coluna. Afinal de contas, este é um espaço para ideias DELAS. E boas ideias, claro. No meio de todo esse frisson, acabei descobrindo o aplicativo Sai Pra Lá. A idealizadora é a estudante Catharina Doria, de apenas 17 anos, que preferiu trocar sua viagem de formatura pelo desenvolvimento.

Cansada das constantes situações de abusos e assédios que, infelizmente, nós mulheres estamos acostumadas a enfrentar diariamente, ela contatou alguns conhecidos que entendiam do assunto e apresentou a ideia. O que o aplicativo faz é mapear o assédio, através de denúncias anônimas das usuárias, que marcam alguns detalhes sobre o que, quando e onde elas sofreram.

Com isso em mãos, a intenção é prevenir novos abusos, alertando às mulheres sobre as situações de risco e pressionando as autoridades a tomarem alguma medida. Buscando aumentar o alcance do projeto, foi criada uma campanha no Kickante, que já alcançou 123% da meta. Você pode baixar o aplicativo clicando aqui.

Queria ser otimista o bastante para dizer que essa frase nunca foi tão verdadeira (Foto: internet/reprodução)
Depois de todo o bafafá que o tema da redação do Enem causou ontem, eu estava determinada a fazer textão sobre o assunto para postar aqui no blog, mesmo que só no dia seguinte. Talvez em parte seja pelo ressentimento de não estar lá, fazendo essa prova só pra sambar na mesa examinadora com minhas palavras. Mas o dia seguinte chegou e passou, e me vieram duas desmotivações: o medo do assunto já ter esfriado e o de que tudo já tenha sido dito. Mas, ei! Aí mesmo é que eu preciso escrever, aí é que não podemos deixar o assunto esfriar e muito menos que o que já foi dito cale o que nós ainda temos a dizer. Mesmo que seja para reforçar o coro dos que já se manifestaram em polvorosa na noite de domingo, mesmo que as nossas vozes não se destaquem no meio dessa multidão: precisamos falar.

Indo ao ponto, então. Para quem estava numa bolha no domingo ou curtiu loucamente o dia mais badalado da semana (só que não), uma contextualização. Esse fim de semana houve a prova do Enem, que trouxe na redação o tema "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". Só isso foi suficiente para que a internet enlouquecesse. O tema foi imensamente bem-recebido e comemorado pelos quatro cantos, pelos mais variados motivos. O principal (e que menos me entusiasma, na verdade) foi a chance de se detectar os “machistinhas” de plantão, que provavelmente acabariam violando direitos humanos em seus textos, o que resultaria em desclassificação imediata.

No entanto, eu não posso ser tão otimista assim, já que eu sei que machista também sabe mentir. Os que seriam capazes de fazer uma argumentação coerente em qualquer outro tema podem muito bem ocultar qualquer caráter desrespeitoso na redação, enquanto os demais provavelmente já não iriam bem na prova, mesmo. Provavelmente apenas uma minoria deve vir a ter seus textos desqualificados assim.

Mas isso não impede que eu comemore, e muito, algo que para mim é muito maior e mais provável que tirar machista da Universidade. Trazer uma redação com um tema social desse calibre escancara ainda mais sua relevância, ainda mais na fase atual, quando tantos propagam a falsa ideia de que nós já alcançamos tudo que tínhamos para alcançar. Quando falo nós tento ser mais ampla, pois não é apenas a luta feminista que vem ouvindo que não é mais necessária. Mas como é o foco no momento, voltemos a ela.

Como já disse ao compartilhar uma publicação na fanpage no Facebook, esse tema nos traz duas grandes esperanças, parecidas, mas principalmente complementares. De um lado, se forem bem avaliadas (e não aprovarem outra receita de Miojo), as redações podem servir como parâmetro para medir o preparo dos candidatos para entenderem um tema do qual muito se fala, mas do qual pouco se tira. As discussões de internet estão aí para demonstrar que o feminismo vem crescendo de forma linda, mas que seus antagonistas também vêm surgindo de todo canto com argumentações vazias.

Do outro lado está o alerta definitivo para nossos professores e escolas entenderem finalmente que temas de relevância social são também relevantes para a formação dos estudantes. Mesmo que de modo forçado, esses assuntos terão de entrar na pauta das conversas em sala de aula. Até as instituições que focam apenas na prova do Enem e deixam a formação e responsabilidade social de lado devem acabar percebendo que, se quiserem manter seus status, terão de falar sobre minorias sim, senhor. Não são bons motivos, mas já é alguma coisa. E só de saber que os jovens estão pensando sobre temas sociais eu já me sinto muito satisfeita. Porque é a partir do pensamento e das ideias que começam a surgir as revoluções.

Agora vamos de bom humor? haha

Daqui pra frente o Enem vai ser diferente
Você tem que aprender a ser gente
Machista não passa em mais nada! Nada!
(Foto: Reprodução/Facebook)

Meu texto de hoje é sobre a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. Pois é, meus amores, o Enem fez a alegria de muitas pessoas (e o desespero de outras) com o tema da redação deste ano. E o nosso blog não deixaria de tocar nesse assunto de tamanha importância.


Como fui uma das milhões de pessoas que participaram de camarote (esse foi meu terceiro Enem), já informo a todos que meus lábios se abriram em um radiante sorriso quando me deparei com o tema. Imediatamente, milhões de palavras surgiram em minha mente, afinal, há muito a ser dito sobre. É claro que a ideia de que o assunto já deu o que tinha que dar está sendo considerada, mas é por isso que eu escolhi publicar hoje. Da mesma forma que a violência contra a mulher é ignorada dia após dia, muitos também a desconsideraram no dia de ontem, atitude que não devemos permitir.

Vamos deixar claro que não estou falando apenas dos machistas que abaixaram o topete ao redigir a redação, mentindo sobre apoiar a causa, mas também dos que se mantiveram estúpidos machões e defenderam que a culpa é da mulher - o que, a proposito, resultará em anulação imediata (J). Quero que percebam a importância social e educacional em torno desse assunto, ok? Ficou claro que a forma automática das quais escolas fazem uso para ensinar está caindo por terra, pois quanto menos envolvidos nesse tipo de questão menor será o preparo para participar de vestibulares, Enem, carreira, vida social, etc.

Acredito que conscientização é chave para melhorar um monte de coisas, mas infelizmente ela não funciona em todos. Talvez, se esse tipo de repercussão surgir com maior frequência, as pessoas passem a dar a devida atenção aos problemas sociais.