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Aproveitando o mês de aniversario, e também a Flip deste ano que homenageia a autora, selecionei cinco fragmentos para se (re) apaixonar por essa mulher que retalhava cotidianos transformando-os em poesia marginal.
 Sempre recriando a si mesma, Ana era a perfeita mistura da modernidade e cotidianos turbulentos escrevia com uma sentimentalidade intensa e passional, assim como todo o resto de sua vida.

        1-    Samba canção:
    “ fui mulher vulgar, 
      meia-bruxa, meia-fera, 
      risinho modernista 
      arranhando na garganta,
      malandra, bicha,  
      bem viada, vândala, 
     talvez maquiavélica, 
     e um dia emburrei-me, 
     vali-me de mesuras "



  2-    pouso a mão no teu peito
   mapa de navegação
   desta varanda
    hoje sou eu que
    estou te livrando
    da verdade



    3-     Fevereiro:
Quando desisto é que surges
Quando ruges é que caio.
Quando desmaio é que corres
 Quando te moves me acho
Quando calo me curas
E se te misturo me perco...”


      4-    Ciúmes:  
"Sinto ciúmes desse cigarro que você fuma tão distraidamente."



5-    Esqueceria outros:
“Pelo menos três ou quatro rostos que amei Num delírio de arquivística organizei a memória em alfabetos como quem conta carneiros e amansa no entanto flanco aberto não esqueço e amo em ti os outros rostos”



Apesar da grandiosa obra é bem difícil encontrar fragmentos da poetisa na internet, mas é possível encontrar sua coletânea realizada pela companhia das letras no link: https://companhiadasletras.paginaviva.com.br/carrinho.cfm?id_ProdutoLoja=9788535923629  
Reprodução/Internet



Eu gosto de cálculo, biologia e ciência, mas também gosto de cozinhar. Faço ballet e passo horas fazendo ponto cruz mas também gosto de catuaba e cerveja. 


Nunca fui boa em videogame mas eu gosto de tentar, nunca aprendi a dirigir mas isso nunca me impediu de chegar onde eu quisesse. Eu gosto de ler e amo estudar, mas eu também amo ir à academia, sair à noite e voltar de manhã.


Ter filhos é um dos meus maiores sonhos, assim como terminar três graduações, fazer mestrado e doutorado. Agora aqui no meu computador tem aba aberta sobre planta, psicologia, circuitos eletrônicos, sexo, fisiologia, blog de moda e política. Eu nunca fui uma coisa só, nunca me encaixei na ideia bizarra de que mulher TEM QUE SER algo – porque desde que a gente nasce somos definidas pelos outros, nunca por nós.


Eu passei muito tempo confusa por gostar de tudo e por muito tempo não consegui ser uma coisa sem me culpar por não ser outra. Até o dia em que eu entendi que eu só tenho que ser o que eu quiser, mesmo. 


O absurdo é que esse texto tenha tantas palavras “mas”, porque na realidade estudar pra caralho não tem nada a ver com gostar ou não de ir pro bar. Eu gosto de carnaval e de física quântica, sou sensível e tô aprendendo a reagir quando devo, sou namorada e independente, curto maquiagem e as vezes passo meses sem depilar a perna e bem, nenhuma dessas coisas anula a outra, e o principal: ninguém tem merda alguma a ver com isso, eu posso ser e sou muito mais do que qualquer um ache que eu deva.

Quem escreve


Kéuri Santos, 23 anos, estudante de Neurociência na UFABC por paixão e professora de inglês por amor.


Ontem à tarde, ao entrar no ônibus, me deparei com uma conversa que estava acontecendo no banco de trás, que chamou muito minha atenção (não que eu fique prestando atenção em conversa de ônibus). O diálogo se passava entre um pai e sua filha: 



"_ Mas pai, não tem problema algum. Tem tanta gente por aí que tem tatuagem.

_ Você não é 'tanta gente'! Não vai fazer tatuagem nenhuma.

_ Mas...

_ Gente tatuada tem problemas para arrumar  emprego, é chamado de maloqueiro, vagabundo ou bandido. A pessoa pinta o corpo, achando que é bonito, que é ter personalidade própria, ser diferente e mais um monte de outras coisas. Mas depois que amadurece vê que é a maior burrice. Que não trás nada de bom. Só atrapalha..."



A conversa continuou, mas eu havia chegado em meu ponto e tive de descer. Só que antes eu me virei para dar uma olhada nas pessoas que conversavam; uma menina de aparentes 14 anos e um pai com um dragão vermelho desenhado no braço esquerdo! o.O



Aquela imagem me fez rir, mas um riso de espanto. É incrível como a hipocrisia, a intolerância e o preconceito estão muito mais perto e presentes do que parece. Como alguém que se tatuou é capaz de dizer ao filho que isso é uma "burrice"? O homem praticamente disse que, quando crescemos, nos entregamos aos preconceitos da sociedade. Ele se assumiu um ser humano incapaz de se manter naquilo em que acredita, preferindo se curvar ao controle imposto pelos intolerantes.



E não é apenas com tatuagens, pensamentos como os dele estão ao montes por aí, acontece com muitas outras pessoas. Um padre que não respeita as crenças de um monge; um branco que se acha melhor que um negro; ou um negro que pensa ser mais que um branco; uma bailarina que critica um estilo de dança diferente do dela (e esses são exemplos até "pequenos"), enfim, um infinito número de hipócritas preconceituosos existentes ao nosso redor.


É incrível como podemos nos achar no direito de criticar alguém sem antes olhar para os próprios erros... Não, 'erros' não é a palavra, afinal de contas, ter uma visão diferente das coisas não é um erro. Criticamos sem considerar nossas próprias atitudes. Aquele homem do ônibus já agiu de uma forma que, hoje, condena de forma agressiva, contribuindo para a dissipação de discursos ofensivos contra quem é diferente, contra ele mesmo.



Inacreditável como é gigantesca a 'habilidade' que alguns homens possuem para ser hipócritas e cínicos. Não importa o que ele tenha feito ou venha a fazer, o problema se dá quando outros estão fazendo. Somos capazes de enxergar erros nas atitudes de quem está ao nosso redor. E, na maioria das vezes, temos uma atitude igual.



A verdade é que deveríamos abrir nossos olhos e mentes. É óbvio que não somos iguais, com diferentes ideias, gostos, atitudes, crenças, tipo físico. E, pelo que parece, uma outra coisa que é muito igual é a ignorância humana. Quanto tempo teremos de esperar para enxergarem que esse é o motivo das tristezas que assolam nosso mundinho?

A propósito, vou fazer ,minha primeira tatuagem! E meu pai pensa como o pai do ônibus.


Reprodução/Pinterest






Atualmente, temos visto várias vertentes do feminismo sendo citadas em conversas. A que eu vou tratar com vocês hoje é o termo Feminismo Intersecional.

Esse termo é cunhado pela professora norte-americana Kimberlé Crenshaw em seu livro e ela o define como:

A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas intersecionais da sociedade. Exemplos disso incluem: raça, gênero, classe, capacidades físicas/mentais e etnia.

Para entenderem um pouco melhor sobre o que estamos falando, vou explicar da seguinte forma, intersecionalidade fala sobre como os diferentes tipos de discriminação interagem. Não há um tipo de feminismo tamanho único e tanto as campanhas feministas como as antirracistas tem deixado as “mulheres de cor invisíveis na visão geral”. 

Por exemplo, eu sou uma mulher negra e, como resultado, enfrento tanto o racismo como o sexismo ao caminhar em minha vida cotidiana. E nunca essas duas formas de discriminações passaram de forma separada em minha vida.



Kimberlé Crenshaw em foto do seu twitter oficial
                             


Acho importante esclarecer, para uma melhor compreensão, que o termo foi utilizado inicialmente para verificar a aplicabilidade do feminismo negro em leis anti discriminação. Crenshaw citou em uma palestra o caso de Degraffenreid vs General Motors, em que cinco mulheres negras processaram a GM por discriminação de raça e gênero. “O principal desafio da lei é a forma como foi fundamentada, porque a lei anti discriminação olha para raça e gênero como elementos separados”, diz ela. “A consequência disso, é que as mulheres negras americanas — ou quaisquer outras mulheres não-brancas — vivem a experiência de uma discriminação por sobreposição ou conjunta. A lei, inicialmente, não estava lá para vir em sua defesa”.

A principal coisa que a ‘intersecionalidade’ está tentando fazer, eu diria, é evidenciar que o feminismo, que é em certos discursos excessivamente branco e classe média, representa apenas um tipo de ponto de vista — e não reflete sobre as experiências de diferentes mulheres, que enfrentam múltiplas facetas e camadas presentes em suas vidas.

Falando como exemplo pessoal, quando o racismo é levantado no feminismo, ele acaba sendo tratado da mesma forma de quando esse tema é proposto em qualquer outro espaço de debate. Os discursos banais habituais são usados ​​e a acusação de “dividir o movimento” é muitas vezes atirada ​​ao redor.


Então, existem muitas opiniões acreditando que até que o movimento feminista majoritário comece a ouvir os diferentes grupos de mulheres dentro dele, ele corre o risco de se tornar estagnado e não será capaz de seguir em frente. O único resultado disso é que o movimento torna-se fragmentado e continuará a ser menos eficaz.
Fonte: http://www.movimentovamosjuntas.com.br/

Na próxima vez que estiver em uma situação de risco, observe: do seu lado pode estar outra mulher passando pela mesma insegurança. Que tal irem juntas?
Vamos juntas?



Hoje eu quero realizar um post sobre uma das idéias mais incríveis desse mundo: o movimento Vamos Juntas?.

Moro em uma cidade do interior, e sempre que saio do trabalho tenho uma reta para atravessar até chegar à minha casa. Essa reta está quase sempre deserta e o fato da minha cidade ser pequena não diminui muito o meu medo. Já tive cães andando atrás de mim, o que me deixou assustada, assim como já tive bêbados me chamando, pedindo para que eu esperasse porque queria conversar comigo.

Hoje novamente ouvi passos atrás de mim, mas dessa vez eram de uma moça que estava saindo da escola noturna. Isso me deixou mais tranquila. Olhei para ela e perguntei se poderia pegar carona em sua companhia, ela logo me deu um sorriso e disse estar justamente tentando me alcançar.

Falei pra ela que essa nossa atitude de querer andar uma ao lado da outra só fortalece o movimento Vamos Juntas?,  foi quando ela me perguntou que movimento era essa do qual eu falava. E é nesse ponto que eu quero chegar, nem todas as mulheres conhecem esse projeto e ainda tem várias que a considera uma perda de tempo.

Portanto, resolvi explicar para minha parceira da reta deserta e a todas as mais que se mostram interessadas/necessitadas do que é que eu estou falando.


Fonte: https://www.facebook.com/movimentovamosjuntas/


Vamos Juntas? É um movimento criado pela jornalista Babi Souza no ano de 2015. A Babi apenas publicou no seu perfil pessoal do Facebook a ideia de que as mulheres não precisam andar sozinhas pela rua, é muito melhoror se unir para atravessar uma praça deserta. Como a própria criadora do movimento diz, só as mulheres entendem o medo que as outras mulheres sentem ao andar por aí.

Cada vez mais mulheres compartilham na pagina oficial do movimento como suas vidas foram modificadas ao se unirem umas as outras e ajudam no crescimento desse projeto.

O movimento se mostra tão importante na união feminina que possui grande força na sororidade. Não é apenas andarmos juntas nas ruas e depois dizer adeus, é ESTARMOS JUNTAS. União total na luta pela igualdade, segurança e valorização da mulher.

O movimento já possui mais de 340 mil seguidoras, e cresce cada dia mais. Já até temos um livro que a babi escreveu, é o “Vamos juntas? O Guia da sororidade para todas".

Entende qual o real valor disso tudo? Você não está sozinha, todas temos medo. Só que todas temos a força para nos unir e nos defender, só precisamos aumentar a corrente para ver isso acontecendo.

Depois de hoje, sei que minha parceira da reta deserta passou a ser mais uma com a qual sei que poderei contar quando estiver com medo de seguir meu caminho para casa.

Reprodução/Internet


Quem aqui conhece o Aurélia levanta a mão! Calma, se você nunca ouviu falar não precisa se sentir fora da casinha. Já explico.

Aurélia - dicionário ilustrado de mulheres é um projeto feito pelas Cecilia Silveira (idealizadora) e Fernanda Drummond, que tem como finalidade ser um dicionário que oferece resumidas biografias de mulheres desse mundão com uma ilustração de cada uma delas.

Segundo a descrição do projeto (que à proposito, me encanta) "talvez, Aurélia não seja bem um dicionário, mas, antes, um espaço para o exercício do afeto. Surge como possibilidade de articular mulheres - ou seja, todo ser humano que assim se anuncia - a volta de histórias inspiradoras de outras mulheres", e nós amamos isso não é mesmo?  Para mim é nítida e fundamental a visibilidade que conseguimos com algo desse tipo, através de Aurélia a valorização, o protagonismo e o empoderamento das mulheres é grandioso.

Selecionei algumas das minhas ídolas para mostrar aqui e deixar um gostinho de quero mais em vocês.


Malala Yousafzai

Nina Simone

Laverne Cox

Convido vocês a conhecerem e procurar mais informações na page e no tumblr  do projeto e também a darem sugestões, já que ele funciona de forma colaborativa. É só enviar para dicionarioaurelia@gmail.com. 


A xícara de café esfriava, repousada sobre uma das cadeiras do auditório, enquanto a garrafa d’água em sua mão esquentava. Já era a quinta vez que o texto era repassado, e ninguém ficava satisfeito. Estavam todos cansados, permaneciam ali há horas, mas o resultado não estava bom. Mais que ninguém, Miriam sentia a ansiedade a dominando cada vez mais. Era por causa dela que não podiam ir embora, que tinham de ensaiar tantas e tantas vezes.

Os colegas atores não demonstravam raiva ou a culpavam, mas ela já se sentia mal por conta própria. Os gritos e reprimendas do diretor não passavam de uma ajuda pro serviço. Ela não conseguia entender. Nunca tivera tanta dificuldade para assumir um papel. Já fizera personagens mais velhas que ela, mais jovens, loucas, putas, santas, professoras, até outras artistas. Mas justo aquela ela não conseguia encarnar.

Qual a grande dificuldade? Ela não conseguia decifrá-la. Era uma mulher comum, e já tinha interpretado mulheres comuns antes. Uma personagem intensa, mas isso também não era difícil para ela. Não era misteriosa, não era elaborada demais, mas era diferente. Por que? Por que ela não conseguia entendê-la?

- Afinal de contas, Hélio, qual a motivação dessa bendita personagem? – perguntou, exasperada, depois de um dos acessos do diretor.

Ela já não sabia mais aonde ir para procurar por inspiração. Sua voz já estava mais fraca e se esquecera de tomar água há pelo menos duas horas. A garrafa em sua mão fazia mais o papel de distração para o próprio nervosismo. Se render daquela forma, fazendo uma pergunta que ela sabia que podia desencadear de vez a fúria de Hélio, era uma medida desesperada. Como imaginado, ele respirou fundo, mas não conteve a ferocidade de seus berros:

- Você não é uma atriz? O papel é seu! Descubra!

Descubra. A palavra ressoou em sua mente. Se o resto daquela fala era uma chicotada em sua moral, aquela palavra final era o álcool jogado sobre as feridas. Descobrir como? Já era a última semana antes da estreia da peça, e ela ainda não conseguira descobrir absolutamente nada sobre a motivação da personagem. O que mais ela podia fazer? Estava tão cansada...

Não podia seguir daquele jeito. Com esforço para se manter firme, apesar dos contínuos gritos do diretor, pediu licença e foi para o camarim, sem esperar resposta. Tremendo de cansaço e apreensão, enfiou a cara na pia. Deixou a torneira escorrer por uns segundos e aproveitou para beber um pouco, dali mesmo. Estava no seu limite. Os gritos do diretor, os olhares escrupulosos dos colegas, suas próprias dúvidas, tudo girava dentro de seu cérebro como a água daquele ralo. Mas, ao contrário do conteúdo da pia, o da sua cabeça não se esvaía.

Levantou-se, deu alguns passos para trás e sentou-se no chão. Pensou rapidamente no texto, tentando não se focar em nenhuma cena ou fala específica. Tinha de haver uma resposta ali, ela só não procurara direito. Todos tem uma motivação, era impossível que aquela mulher fictícia não tivesse. Parou, no entanto, ao pensar em si mesma. E ela? Qual era sua motivação?

Lembrou-se da primeira vez que fez uma aula de teatro. Criança, tímida, desde aquela época já não era mera diversão, mas também um meio de ser mais extrovertida. Cresceu, adolesceu, e continuava atuando. Era bom fazer uma manutenção, e se o medo de falar em público voltasse? Mas ficava um tempo sem fazer teatro e ele não voltava. Não era pela timidez.

Época de vestibular, escolheu artes cênicas. Era só o que sabia fazer, afinal. Não. Pensava assim, mas no fundo sabia que era mentira. Sabia escrever, era boa em línguas, em história, até em biologia. Mas era só o teatro que ela amava. Escolheu a profissão, o teatro, por amor. Gostava de ser e vivenciar o outro, podendo voltar a ser ela mesma quando saía do palco. Sentia prazer em mexer com as emoções do público, e via na arte a obrigação de fazer os outros pensarem. E, principalmente, gostava de fazê-lo descobrindo mais sobre seus personagens. Era isso que a motivava.

Por fim, percebeu que o mesmo motivo que a levara até aqueles palcos era o que a fazia bater tanto com a cabeça na parede para entender uma pessoa que nem existia. Era o que sempre fazia, tentava conhecer o outro. “Afinal de contas, se sou eu essa personagem, por que ela não pode ser motivada pela minha vontade de vivê-la?”, pensou.

Não estava completamente segura, mas voltou para junto dos colegas mais tranquila – e hidratada. Repassaram a cena mais umas duas vezes, e finalmente começaram a ficar satisfeitos. Não estava perfeito, é verdade, mas já era algo. Ao menos, podiam ir para casa e descansar. E, mesmo não estando perfeita, Miriam não pode deixar de sentir um certo orgulho da própria atuação. Acreditava que, pela primeira vez, ela realmente sabia o que motivava sua personagem. Ela mesma.