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Quando a noite cai, surge a mais solitária das estrelas. Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno, brilho esse que atrai muitos olhares. Nenhum que a fizesse feliz. Não posso dizer que ela não conhecia a felicidade, mas garanto a vocês, ela estava incompleta. Sempre cercada de outros como ela, sempre cercada de outros diferentes dela, sempre olhando ao redor à procura de algo mais.


A noite caiu, Sirius surgiu. Sua procura estava quase no fim quando se deparou com o olhar do Astrônomo. Seus lindos olhos a atraíam de forma extrema, era como se eles fizessem um pedido... "Sorria para mim, minha linda estrela". E assim ela o fez.


E essa cena foi se repetindo por muitas noites. Eles se encontravam (da maneira que lhes era possível), conversavam, sorriam, se olhavam, se sentiam, se amavam. Mas Sirius tentava ir contra tudo o que se passava. Como poderia se deixar apaixonar por alguém tão inalcançável? Jamais poderiam ficar juntos!


Ela quis aumentar a distância entre eles, mas não conseguiu. E de que forma? Não era possível se afastar, tarde demais para fugir e intenso demais para ignorar.


Ao mesmo tempo em que ela negava seus sentimentos, ela também se apegava. Passou a enxergar um homem incrível. "Ele é tão inteligente, dedicado, carinhoso, verdadeiro, apaixonado... eu estou apaixonada", assim ela começou a pensar.


O Astrônomo alcançou o coração da estrela. E de tal forma, que não foi necessário criar uma galáxia para viverem juntos, Sirius desceu do céu só para poder entregar todo o amor que ele despertou dentro dela. Não era mais necessário procurar por algo que a fizesse feliz. A estrela mais brilhante do céu noturno uniu-se a um Astrônomo para provar ao mundo que o amor existe para todos. Não importa onde você está.
Reprodução/Internet


De todos os rótulos que já me colocaram esse é sempre o que mais me ofende. Não é um elogio quando usam essa frase pra dizer que eu tenho que parar de ser quem sou, quando dizem que vivo errado e não devia me entregar tanto.

Ofende porque não deviam me fazer sentir culpa por isso, não é um crime ou vergonha. Poxa, é só amor! O que tem de tão horrível nisso? Acredito que horrível é quem não sabe receber.


Reprodução/Internet


Eu nunca perdi nada por me doar, porque transbordo tanto, que nunca vai me fazer falta. Em tempos de lambes com a frase “mais amor, por favor” espalhados por aí, como alguém pode ser recriminado por praticar? Eu queria que as pessoas estivessem mais preparadas para a troca mútua. Dizem tanto querer que uns se importem mais com os outros, mas se assustam quando alguém o faz.

 Não tem graça nenhuma viver sem reciprocidade.

E eu simplesmente acho ridículo quando me dizem isso com o ar de piedade. Tenham dó de quem não sabe amar, não sabe se entregar por viver com medo. Francamente, estou começando a crer na frase de Cássia Eller: O mundo está ao contrário e ninguém reparou!

Eu não, quero mais é transbordar, ser inteira e me doar. Uma vez uma amiga me disse que quem é mole nunca vai endurecer. Acho que ela estava certa... Me recuso a criar cascas e escudos por causa de dores passadas e me recuso principalmente porque aprendi com cada tranco e barranco da vida que amor é assim mesmo, quanto mais você dá, significa que mais você tem. Permita-se!




Luara é geminiana com ascendente em câncer. Intensa por natureza, socióloga por profissão, atriz por paixão, bailarina por amor e feminista por dever!


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Texto escrito pela Nathalia Lourenço para o Elas Por Elas


Era uma vez, uma moça inteligente, divertida, linda, simpática… e insegura.

Não posso nomear a moça, elas são muitas, são minhas amigas, são mulheres que nem conheço, sou eu mesma.

Não sou capaz de contar a quantidade de garotas que conheço que são inseguras, muito inseguras. Também não sou capaz de contar a quantidade de relatos diferentes e ainda assim tão parecidos sobre suas inseguranças.

Ah, moça… se soubesse que isso tudo são armadilhas que colocaram na nossa cabeça…

Desde muito cedo somos ensinadas sobre como devemos nos vestir, falar, como nosso corpo deve parecer. E ai, se foge desses padrões, bom, vão te aconselhar “amigavelmente” a mudar. Afinal, é para seu próprio bem que você seja magra, tenha cabelos lisos, que fale como uma moça deve falar, que se porte como uma dama e outras coisas.

O que as pessoas não percebem, ou resolvem ignorar, é o quanto isso é tóxico, ter que fingir ser quem não se é ou perseguir um ideal de beleza mesmo que isso custe sua saúde.

Pretty Hurts (A beleza dói), música de Beyoncé


Acredito que toda essa exposição do “normal” e padrão na mídia a qual estamos acostumadas seja a maior culpada por toda nossa insegurança.

A beleza é uniformizada, e todas devemos ser assim, idênticas, mesmo que tenhamos um metabolismo ou genética diferentes e outro estilo de vida.

E, supostamente, quando atingirmos esse tão desejado padrão seremos mais felizes do que somos agora.

Sinto muito moça. Sinto muito por terem colocado essas coisas todas na sua cabeça, por terem te feito pensar que não é boa o bastante, linda, inteligente. Sinto muito por não terem te ensinado a se amar, a ver todas as suas qualidades e a ressalta-las sejam elas físicas ou não.

                      Você é gentil, você é inteligente, você é importante. (Filme: Histórias Cruzadas)

Te convido a olhar para o espelho, a enxergar sua beleza e a pensar nas suas qualidades. Pode ser um pouco difícil se não estiver acostumada a se ver dessa maneira, então peça ajuda as suas amigas, com certeza elas saberão te apontar os motivos por você ser bela e especial.

Eu escrevi tudo isso só para dizer que você é linda moça. Acredite.
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Algo nela me chamou atenção
Não sei dizer o que
Nem sei dizer porquê
Mas essa menina me fez perceber
Não sei dizer o que
Mas talvez, a realidade
Um outro lado da verdade
Algo despertou quando ouvi a sua oração
"Ele não sabe a minha história
A minha pele pode ser branca,
Mas ele não sabe a minha história.
Ele não sabe a minha dor
Ele não sabe a minha cor
Ele não sabe o caminho
Que os meus pés arranharam para chegar até aqui.
Para abrir a boca e dizer
Racista?
Minha pele pode ser branca
Mas ele não sabe a minha história
Ele não sabe os meus sufocos
Ele não sabe as minhas lágrimas
Ele não sabe as minhas dores
A minha mátria
Ele não sabe a minha luta
Ele não sabe a minha fome
De justiça
De igualdade
De minoria
Mas eu também sou maioria
Eu sou maior
E também posso ser
Ele não sabe que eu já sou
Eles não sabem que já somos
E sempre fomos
Sempre estivemos aqui
Para abrir a boca e dizer
Racista?"
Oração mais sincera
Clamor de quem se desespera
Não espera
Corre
E vive
E luta
E sofre
E vive
E ama
Confesso que foi assim que ela
Fez chamar à minha atenção
E depois disso, que descoberta!
Me desmontei e me desmonto
Dia após dia
A pensar naquela história
Naquela menina
Que vive
Ama
Corre
Existe
E ela é 
Uma
Duas
Três
Várias
Muitas
Dores e flores 
Num espelho, que reflete a realidade
Uma outra versão da verdade
O outro lado da rua pela qual ouso caminhar
E me arrisco a enxergar
O que muitos me esconderam
A realidade bate à porta
E eu, com prazer, 
A deixo entrar.


Me chamo Sara, tenho 19 anos, sou geminiana, artista, bailarina, poetiza, professora de dança contemporânea e apaixonada pela arte em todas as suas formas de expressão.




Antes de começar este texto, só quero deixar claro o quanto ele é baseado em mim. Sim, ele é baseado nas minhas vivências, com um cadinho de história envolvida e só quero te convidar e pensar. 


Antes de começar o Blog, sempre lutei e relutei em abordar moda, porque sim, porque para a maioria das pessoas moda é futilidade. Mas, assim como tinha esse receio, me veio a vontade de mostrar a quem eu pudesse que moda é muito mais do que esta camiseta que você veste neste momento. Toda roupa, cor, influência, tem o porquê de ser, mas, não é sobre esta questão técnica que quero falar, quero na verdade te convidar a pensar no quanto a moda pode libertar e aprisionar, no caso, nós mulheres.


A moda, mais do que estar nela, existe como parte de expressão pessoal. É você dizendo, em cada detalhe, quem você é, porque é, e logo, podemos tratá-la como resistência ou subordinação. Por mais que a gente tente, a todo o momento, resistir às opressões e a socialização, existem outras mulheres que sucumbem a elas, e pouco podem fazer a respeito. Não faz muito tempo em que a burca, por exemplo, não era obrigatória em alguns países de origem islâmica, e convido você a ler o post da Ingrid sobre isso, é só clicar aqui.


Ao mesmo tempo em que tentamos nos expressar, lutamos contra uma indústria totalmente machista e que nos divide entre padrão e não padrão. Uma indústria que vê nos tempos atuais, uma espécie de mude ou morra, porque nós, dentro da nossa cultura, não aceitamos o que querem que a gente aceite. Não aceitamos sermos chamadas de plus size, quando não usamos manequim 38, não aceitamos que certas peças de roupa, sejam para poucos, não aceitamos que expressões culturais sejam chamadas de brega. Nós também não aceitamos mais que nossos cabelos tenham que ser lisos, só para fazermos parte de um grupo. Não aceitamos, simples.

Ju Romano. Referência em moda, empoderamento, amor próprio e quebra de padrões.


A meu ver, além de uma forma fundamental de expressão, a moda torna-se resistência. Usamos o que queremos, porque queremos e nos aceitamos como somos, e a indústria de consumo tem que aceitar, são as nossas regras. Por isso, mana, amiga, irmã: afirme-se. Não tenha medo, use e abuse da moda, esteja nela se quiser, não esteja se for sua opção. Não se anule por nada e nem por ninguém. A parte mais deliciosa de ser moda é ser o que quiser, usar o que quiser, sem deixar de ser o que mais você deve amar: você!

Nota: Esse texto foi feito pela blogueira Rafaela Arnoldi, feminista e proprietária do blog de moda Diariamente.
Cale-se, não pode sair por ai dando sua opinião.







Bem vindos ao meu mundo, no qual sou obrigada a ouvir essa frase todos os dias. As vezes dita com outras palavras, mas sempre com o objetivo de me manter calada.

Para aqueles que não me conhecem, sou uma garota de 22 anos que não tem medo das palavras. Trato as palavras como minhas amigas, pois elas o são. Elas me permitem expressar meus pensamentos, sentimentos e coisas que não seriam possíveis por outros meios. Elas me ajudam a construir o que desejo, sem nunca me julgar ou me repreender. Elas me fazem livre, para espalhar alegrias, compartilhar tristezas e dividir frustrações.

Mas as pessoas, essas tem medo das palavras.

Medo de que suas palavras as joguem contra elas mesmas. Medo que palavras alheias joguem outrem contra elas. Medo de usar palavras erradas. Medo de usar as palavras certas demais.

Esse receio todo faz as pessoas pensarem muito em suas palavras quando só as deveriam dizer. As palavras se tornam sua prisão. E talvez por estarem presas, as pessoas supõe que o mundo seria melhor se não apenas uma ou outra pessoa estivesse trancada dentro de si mesma, mas que todas estivessem em igual posição.

Mas por ser amiga das palavras, por ter sua compreensão, apoio e ser empoderada por elas, não sou capaz de atender a tal pedido. Não sou capaz de pensar demais sobre elas. Não sou capaz de editar meus pensamentos e sentimentos. Não sou capaz de frustrar a mim mesma e as minhas palavras para agradar a outrem. Não sou capaz de não ser eu mesma.

Em um passado distante, eu mesma não me entendia com as palavras, as pensava demais, as guardava demais. Mas percebi que ao permitir que elas fossem livres, quem estava livre era eu.


Nathalia Lourenço




Há dias em que ecoo esta frase quase como um mantra. Gosto de acreditar na ilusão de que tudo tem um destino porque querendo ou não, de certo modo é reconfortante você pensar que não pode fazer nada pra mudar o que te acontece.



Mas hoje me peguei reflexiva... Vi que uma amiga que namorava há anos, já tava até morando junto, terminou o relacionamento. É engraçado que fico mais em choque que os próprios envolvidos. Poxa, eles pareciam combinar tanto, pareciam que ficariam juntos para sempre... Quem poderia imaginar?! Afinal, será que alguma coisa é realmente pra ser? Será que não estamos perdidos no limbo do acaso? Será que tudo não passa de mera coincidência? Não encontrei resposta.



Sempre que não tenho respostas imediatas para os questionamentos de gêmeos com ascendente em câncer o papel e a caneta são meus melhores amigos. E escrevendo agora percebo que talvez nada seja “para ser”, mas tudo seja para CRESCER.


Nunca tinha pensado por esse ângulo e de repente todos os acasos fizeram sentido. Cada pessoa, cada dia, cada queda... Enfim, tudo que acontece na nossa vida pode até não vir a ser obra de um destino ou coisa do tipo, mas sem sombra de dúvidas é o que faz a gente aprender a lidar com essa tal de vida. A gente sempre espera pelo amanhã... Haverá? Vamos viver e amadure[ScER].


Luara é geminiana com ascendente em câncer. Intensa por natureza, socióloga por profissão, atriz por paixão, bailarina por amor e feminista por dever!
Reprodução/internet

Ontem voltei a assistir àquela série que começamos juntos. Que boba eu, estava até agora perdendo uma série sensacional, tudo só por querer me afastar de qualquer coisa que me remetesse a você. Vez ou outra algo ainda me faz lembrar e dói, dói muito, mas não mais por saber que te perdi e sim por entender que aquela pessoa que eu conheci, nunca sequer existiu. É como naquela música “minha maior ficção de amor” porque sim, foi isso que você foi, uma ficção, não existiu de verdade, só na minha cabeça.

E sabe, até que não tem sido tão ruim olhar as coisas por esse ângulo. Do lado de cá enxergo com mais clareza e vejo que nunca daria certo mesmo. Esses dias li um texto que fez muito sentido, dizia que às vezes estamos numa cama tão quentinha que é difícil sair dela, mas nem sempre essa cama é a nossa. E é bem isso... Casas a gente tem várias, lar é só um. O meu não era em você então não foi perda, foi livramento. 

Não tenho culpa se meu Vênus é em Leão e então me entrego, me doo, me permito. Eterna filosofia do trate como gostaria de ser tratado. Alguém ainda vai retribuir! E vai ser de verdade. Enquanto isso, estou leve e hoje vou viver pra mim, o verdadeiro amor da minha vida. Porque eu sim não sou ficção, sou real, de carne, osso, sangue e coração. Como diria Cássia Eller, bobeira é não viver a realidade. E a minha realidade é amar.



Quem escreve



Luara é geminiana com ascendente em câncer. Intensa por natureza, socióloga por profissão, atriz por paixão, bailarina por amor e feminista por dever!

Procurando achar uma forma de dizer para as mulheres a quão poderosa elas são, então me deparei com a seguinte pergunta. Já pensou se todas as mulheres acreditassem no quão são capazes de se amarem e de se tornarem donas de si? Com certeza conseguiríamos derrubar o “espetáculo” machista.

 O espetáculo machista é também o mundo dos corpos perfeitos, quanto mais "bonita" e apresentável nos padrões estéticos corporais a mulher for, mas ela é aplaudida e considerada a “mulher dos sonhos de qualquer homem”. A cada dia aparece uma forma "feminina" de ser, para que nos “aceitem” como "verdadeira" mulher. 

Parece está tudo calculado, cronometrado rigorosamente. Nada a mais para esquerda e nem pra direita, tudo tem que está no seu devido lugar, para que nos vejam como uma “verdadeira” mulher. Constrói-se padrões estéticos, padrões ideológicos, padrões e regras de todo tipo até enquadrar a mulher numa verdadeira gaiola. 

Afinal o que vai ser do homem, se a Mulher deixar de ser essa “mulher” idealizada pelo mundo machista? Se essa mulher deixar à cozinha, deixar de querer ter filhos, deixar de servir seu marido para ir busca de novos horizontes? O que acontecerá? Simples... ela não deixará de ser Mulher apenas deixará de ouvir o mundo machista para ser ela mesma! Mulher construa seus próprios padrões e empodere-se!

Liberté!






Silmara Peixoto Moreira, feminista, pesquisadora, graduada em Bacharelado em Humanidades e graduanda em Sociologia, UNILAB.
Imagem/Reprodução

Os estudos de gênero tem mostrado, em linhas gerais, que a ciência está falando apenas de uma parte desta humanidade, vista sob ângulo masculino, e que não foi por acaso que, durante séculos, havia poucas cientistas mulheres. Pois “a ciência que aprendemos desde a escola reflete os valores construídos no Ocidente desde o final da Idade Média os quais se refletem em apenas uma parte do social: a dos homens, brancos e heterossexuais” (GROSSI, 1996, p. 4).

Diante disso, através dos movimentos sociais feministas, a mulher ganhou maior visibilidade na sociedade (devemos lembrar-nos da contribuição dos movimentos LGBTT, negro e, em especial, o movimento feminista negro, por ter levantado a importância de ser pensar a interseccionalidade, por sofrer cotidianamente o racismo e a discriminação de classe e gênero), assim foi possível reescrever a história das relações sociais adicionando a mulher a esta reescrita até então esquecida durante séculos. No caso brasileiro, as mulheres dos movimentos feministas assumiram tardiamente uma luta que já começou na Europa e nos EUA no início da década de 1960, e tinha como uma das principais bandeiras “o respeito à autonomia e à liberdade da mulher” (PETERSON, 2004, p. 142).

A desigualdade de gênero existente na sociedade é fruto histórico do sistema patriarcal, no qual o homem, no papel de marido ou pai, é o ator/personagem fundamental da organização social. É ele quem exerce a autoridade sobre as mulheres, os filhos e os bens materiais e culturais, (ALVES e CAVENAGHI, 2012, p. 102). O patriarcalismo resultou em exclusão social para nós mulheres. A dominação masculina e o modelo patriarcal foram construídos culturalmente ao longo do tempo em nossa sociedade, como afirma Bourdieu (2012, p. 45).

A dominação masculina encontra, assim, reunidas todas as condições de seu pleno exercício. A primazia universalmente concedida aos homens se afirma na objetividade de estruturais sociais e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho de produção e reprodução biológica e sexual, que confere aos homens a melhor parte [...] (BOURDIEU, 2012, p. 45).

Além do sistema patriarcal enfrentamos o sistema capitalista. A Síntese de Indicadores Sociais 2002, lançada pelo IBGE, confirma que na desigualdade por gênero, as mulheres ganham menos que os homens em todos os estados brasileiros e em todos os níveis de escolaridade. Elas também se aposentam em menor proporção que os homens e há mais mulheres idosas que não recebem nem aposentadoria nem pensão. O sistema capitalista (produção privada dos meus de produção) historicamente se favoreceu com a mão-de-obra “barata” das mulheres e das crianças, enquanto as mesmas eram impedidas de participar da vida política e das decisões que favoreciam a classe burguesa, dominada por homens que consequentemente fortaleciam o regime patriarcal (dominação masculina), que cada vez mais silenciavam as vozes das mulheres. Diante disso os capitalistas se aproveitavam para manter essa desigualdade entre homens e mulheres.

A desigualdade de gênero é um dos maiores problemas enfrentados pela mulher nessa sociedade fundamentada no patriarcalismo que regulariza a relação de gênero como homem e mulher voltados apenas para procriação, deixando de lado outros aspectos importantes para a vida social da mulher como educação, trabalho, saúde, lazer etc. Cecília Toledo (2014, p. 13) fala da ideologia machista construída desde 1865 até meados da década de 1880, segundo o qual “lugar da mulher é no lar”, que foi impulsionada por intelectuais da época, filósofos, pesquisadores influentes nos meios políticos e operários de toda a Europa, cujas ideias defendidas eram bem semelhantes às dos pais da Igreja, isto é, os teólogos que construíram a teologia do catolicismo na Idade Média (TOLEDO, 2014, p. 13).

Essas ideologias machistas diziam, por exemplo, que a função da mulher era a procriação e as tarefas domésticas. Portanto, segundo essa concepção, a mulher que trabalhava fora de casa estava roubando o trabalho do homem. Chegaram até a propor que o marido tivesse direito de vida ou morte sobre a mulher, em casos de desobediência ou falta de caráter, mediante a uma relação aritmética, a inferioridade do cérebro feminino em relação ao masculino, (TOLEDO, 2014, p.13).

Em consequência dessas ideias machistas, a opressão ainda é vivida nos dias de hoje pela mulher diariamente, em casa, na rua, na escola ou no trabalho, nos quais seus direitos ainda estão comprometidos além do sistema capitalista que as exploram, também por essas ideologias conservadoras de cunho patriarcal ou a dominação masculina (BOURDIEU, 2012), que durante séculos oprimiu e discriminou as mulheres e hoje as mesmas sofrem a opressão do sistema explorador capitalista e das ideologias machistas que constantemente lhe dizem como devem pensar agir e como devem vestir-se e comportar-se em nossa sociedade.

A inserção das mulheres através da sua luta e resistência no meio social (antes apenas dominado por homens) de forma efetiva possibilitou o reconhecimento, não apenas dos seus direitos, mas também da sua liberdade de se expressar, de seu direito de decidir sobre ações importantes na vida política dentro da sociedade, assim como o direito ao voto. Sua participação continua sendo peça fundamental para a construção efetiva da democracia, que é uma luta constante nessa sociedade fortemente marcada pelo patriarcalismo e pela desigualdade social e racial, disseminada pelo sistema explorador (capitalista) e seu estado burguês.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALVES, J. E. A, CAVENAGHI. S. M. Indicadores de Desigualdade de Gênero no Brasil. Mediações, Lodrina, v. 17. N. 2, p. 83-105. Jul-Dez. 2012.

BORON, Atílio A, AMADERO, Xavier, GONZÁLES, Sabrina. (Orgs). A teoria marxista hoje: problemas e perspectivas. Buenos Aires: Clasco, 2006.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 11. ed. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 2012.

COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos Direitos Humanos. 7. ed., ver. e atual . São Paulo: Saraiva, 2010.

GROSSI, Mirian Pillar. Identidade de Gênero e Sexualidade. Vº Curso de Saúde e Direitos Reprodutivos: Campinas, 1996.

MELO, Hildete Pereira de. Gênero e Pobreza no Brasil. CEPAL-SPM: Brasília, 2005.

MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 12 ed. São Paulo: Atlas, 2002.

OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. As mulheres, os direitos humanos e a democracia. Textos do Brasil: Cinquenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, Maio/Agosto 1998 Ano II – no 6.

PETERSEN, Janine. Feminismo e a polêmica da contracepção no Brasil (1970-1980). Esboços-Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFSC, Florianópolis, v.11, n.11, p. pp. 135-144, jan. 2004.

SOARES, Maria Victoria Benevides. Cidadania e Direitos Humanos. In: CARVALHO, José Sérgio (Org.) Educação, Cidadania e Direitos Humanos. Petrópoles, RJ: Vozes, 2004. págs. 56-65.


TOLEDO, Cecília (org). A Mulher e a luta pelo socialismo; por Kalr Marx, Friedrich Engels, V. I. Lênin, Clara Zetkin, Leon Trotski. 2.ed. São Paulo: Sundermann, 2014.





Silmara P. Moreira, feminista, escritora, graduada em Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades e graduanda em Sociologia, UNILAB.
Reprodução/Internet


Eu escrevo esse texto por três motivos: porque eu já estive em um, porque minhas amigas já estiveram/estão em um e o mais importante: porque sempre vejo muitos julgamentos entorno do que é estar em um.

Quantas de nós já não ouviram coisas do tipo: “Você está nessa situação por que quer.”, “Você gosta de sofrer?”, “Você é cega?”, “Será que você não percebe o que está acontecendo?”. Dentre muitas outras perguntas que nos são feitas no intuito de ajudar, mas, que na verdade só nos magoam ainda mais. Como diria a brilhante Jout Jout sobre relacionamentos abusivos; “Uma parte de você sabe, mas, você meio que não sabe ao mesmo tempo.”(Para quem não conhece o vídeo, clique aqui)

Mas, a questão é: “Se sabemos, não deveria ser fácil então dar um basta?”. Bom, deveria, mas não é. Usando meu relacionamento abusivo como exemplo, e analisando outros relatos que já ouvi, não é tão simples acabar com um relacionamento assim por inúmeros fatores, vou citar alguns que eu considero os principais:

Você demora a acreditar que a pessoa que você ama não te ama também.


Cada um tem sua forma de demonstrar amor, carinho e afeto. Ok. O ponto é que; por estarmos muito envolvidas naquela situação, não percebemos que a pessoa com quem estamos, demonstra através de censuras, descasos, violência verbal e/ou física, ignorar nossas necessidades, além de muitas outras formas de abusos, não se importar conosco e com nosso bem estar. Então, começamos a nos enganar para justificar aquela situação: “Ele é assim mesmo.”, “Ele não estava num dia bom”, “Ele não foi acostumado a pedir desculpas.”, “No fundo ele também estava sofrendo.”


Ele te faz crer que a culpa é SUA, e assim você começa a aceitar que é mesmo.


Usando um exemplo pessoal, muitas vezes meu ex me tratou mal, mas não deliberadamente, e sim de uma forma muito articulada, para que eu acreditasse, que se ele estava agindo daquela forma, bom, alguma coisa EU tinha feito. Óbvio, que erros todo mundo comete na vida, e não estamos isentos de irritar alguém uma vez ou outra. Só que quando se trata de relacionamentos abusivos, não percebemos de forma clara como as situações são sempre projetadas para o nosso comportamento, por exemplo: “Eu desligo o telefone na sua cara, porque você chora demais”, “Eu não vou mais sair com você, você é muito histérica”, “Você é a pior mulher de todas” (sim, isso já foi me dito).

E é aí que ao invés de nos perguntamos: mas eu SOU assim, ou eu ESTOU me sentindo assim por algum motivo? Com quem me trata bem, eu ajo da mesma forma?, Eu tinha esse comportamento antes de conhecê-lo? Nós começamos a pensar: “puxa, ele tem razão, vou me controlar mais.” Mas depois de dias, meses ou até anos, nos damos conta de que nunca é o suficiente.

No fundo, você acredita que o amor cura tudo.


Desde nossa infância, a maioria de nós (mulheres) éramos educadas para sermos, gentis, dóceis, amorosas e prestativas. (algumas não foram criadas assim, e outras simplesmente não têm todas essas características, mas vou abordar o que acontece na grande maioria das vezes). Crescemos com o nosso imaginário sendo moldado para que não importa o que aconteça, no fim, o amor triunfará. Isso está nos filmes, nas novelas e nos milhares de livros de auto-ajuda que em sua grande maioria são destinados a nós. Nós temos uma imensa variedade de textos nos dizendo como deveríamos agir para conquistar o homem amado, (até nas revistas voltada paras as adolescentes), enquanto que para o gênero masculino, esse tipo de “manual sobre o gênero oposto” é ínfimo.

Sendo assim, é muito difícil dar um basta em algo que no fundo, você acredita que possa dar certo. Isso se aplica até a aquele emprego que você detesta, ou aquela faculdade que você não suporta, mas, permanece, porque tem a sensação de que um dia tudo vai melhorar. (Ainda assim, outros tipos envolvimentos, como faculdade ou emprego, por exemplo, geralmente, dependem SÓ de você e do seu comportamento para prosperar. O seu relacionamento não, ele depende de DUAS pessoas. E infelizmente, nos esquecemos disso.). Dessa forma, tentamos amar por dois. Conciliar por dois. Conversar por dois. Entender por dois.

Como sua auto-estima foi bombardeada com negatividade, você sente que ninguém mais vai te dar uma chance "como ele deu".


“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” – Joseph Goebbels. Essa frase dita Goebbels, traduz o que acontece na nossa mente, depois de se incutir uma ideia várias e várias vezes. (Para quem não sabe, Joseph Goebbels era ministro de propaganda de Adolf Hitler.).

Logo, se é possível “moldar” o pensamento de milhares de pessoas, usando um ideal, também moldamos os nossos, quando sofremos abusos de nossos parceiros. Começamos a nos questionar, quem mais poderia ficar conosco, se somos assim tão: “loucas”, “gordas’, “burras”, “histéricas”, “choronas”, “____insira aqui mais adjetivos depreciativos que eles dizem___”. Dessa forma, começamos a acreditar que é melhor estar com alguém mesmo que te trate mal, AINDA está contigo.


Depois de um tempo, ele parece ter melhorado (mas só parece).


Isso acontece muito depois de um término, um tempo, ou uma briga muito feia. Ele depois de um tempo, parece ter finalmente assimilado que as coisas estavam ruins, e que a partir de agora ele vai fazer de tudo para que nada daquilo se repita, e fique agradável novamente. Isso também aconteceu comigo, depois de um ano, meu ex voltou querendo falar comigo, parecendo realmente muito arrependido do que aconteceu. Não deu duas semanas e ele voltou a me tratar mal novamente, e agir como um completo egoísta. O porquê de isso acontecer? Bom, eu não sei dizer o que se passa na cabeça alheia, e meu texto nem está aqui pra isso. Está aqui para dizer: não se culpe caso isso tenha acontecido. Mesmo que essa chance tenha sido dada muitas vezes. Como eu disse, quando nós realmente queremos acreditar que tudo vai ficar bem, às vezes, é só de uma promessa (mesmo que falsa) que um coração machucado precisa.

Ele te ameaça.


Você já percebeu que há algo errado, e conseguiu ter forças para acabar com o relacionamento. No entanto, você começa a receber ameaças para que mude de ideia: “Eu vou aparecer no seu trabalho.”, “Eu vou me suicidar se você fizer isso.”, “Eu vou tomar os seus filhos.”, “Se você fizer isso, eu nunca mais vou te deixar em paz..”. E como obviamente você não quer que nada disso aconteça, você desiste do término e permanece.



Portanto, eu escrevi esse texto não só para ajudar as minas que estão passando por isso, mas para principalmente dizer: tentem não julgar. Eu sei que é difícil, e às vezes eu mesma caio nessa armadilha. Se essa mina é sua mãe, filha, amiga, irmã, colega... Não aponte o dedo, fazendo-a se sentir (mais) culpada por não conseguir sair de um relacionamento. Veja, bem, meu texto de forma alguma, está aqui para apoiar, ou incentivar as minas a continuarem em relacionamentos abusivos, muito pelo contrário. Eu citei quatro possíveis justificativas, mas, eu tenho certeza que existem muitas outras. Às vezes ela simplesmente não tem forças, por estar extremamente deprimida, não tem informação, não tem apoio, está sendo ameaçada... Então se você se encontra nessa situação, não vou terminar esse texto com a frase: sai logo dessa. E sim: um dia você vai sair, mas enquanto esse dia não chega, estaremos aqui.



 Ps1: Meu texto foi baseado em relacionamentos heterossexuais, homem (cis) (abusivo) – mulher (cis) (“vítima”), mas, eu sei que existem outros tipos de relacionamentos em que o abuso também acontece. Escolhi falar sobre esse parâmetro porque é onde muito vejo mais relatos e vítimas, principalmente pelo machismo tão claro na nossa sociedade.

 Ps2: Se você não se sente a vontade com seu relacionamento, procure ajuda. Converse com alguém, existem diversos tipos de terapias que você pode procurar para recuperar sua auto-estima. Em casos de violência, ligue 180.



Quem escreve



Luiza Pion, estudante de produção cultural, aquariana, feminista, idealista e empreendedora. CEO da Dulce Tangerine. Acredita que a arte pode mudar o mundo.


No princípio, era apenas uma estrela, um pequeno ponto brilhante entre tantos que enfeitava a infinita escuridão daquela noite de outono. Não era nenhuma estrela especial. Apenas uma ideia solta, flutuando no céu. Sabe-se lá por que razão não se perdeu no espaço. Talvez porque soubesse que ser somente mais uma entre tantas não era suficiente, talvez porque estivesse presa a Terra, porque estivesse presa a você.

Todas as noites a estrelinha aparecia no céu e ficava horas piscando consigo mesma, tentando de todo modo imaginar o que se passava em sua mente. Pobre estrelinha... descobriu que, na verdade, o que a prendia a você era amor, em toda a sua pureza e simplicidade.

Mas uma estrela não pode amar um homem. Ela está tão longe, tanto que seu calor nunca tocaria o coração de seu amado. Pôs-se, então, a chorar lá do céu. Vendo as lágrimas de luz que lançava sobre a Terra, a bondosa Lua se compadeceu da estrela:

– Diga-me, filha, por que chora?

– Meu amado, senhora Lua, nem sabe que existo. Eu, daqui de cima, só posso brilhar e esperar que ele me veja. Mas parece que ele nunca olha pra mim...

– Compreendo sua dor. Gostaria de poder ajudá-la de alguma forma.

– Oh, não! – disse a estrelinha se apagando entre soluços – A menos que consiga me mandar à Terra, não há nada que possa fazer. 

A Lua sorri redondamente mostrando toda sua face iluminada de sol. 

– Acho que posso ajudá-la... – respondeu a Lua – mas você deve saber que para descer até ele, não poderá ir com sua forma original. Diga-me o que gostaria de ser, entre qualquer dos seres terrestres, e lhe realizarei o pedido.

A estrelinha lançou um ultimo brilho sobre você, que estava sentado sozinho na praça com uma flor nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê...

– Faça de mim uma flor – pediu a estrelinha – mas que possua o mais doce perfume, para que ele saiba que estou lá.

Assim a Lua fez. Logo que a cidade adormeceu, ela desceu à Terra, mas já sem seu brilho de estrela, agora era uma flor, tão branca, tão pequena e tão delicada que passaria despercebida a olhos desatentos. Seu perfume, porém, era tão doce que chegava a ser enjoativo a narizes mais sensíveis. 

Orgulhosa de si mesma, a estrelinha que agora era flor, agradeceu a Lua com um balanço de suas folhas ao vento, ao que a Lua respondeu com um sorriso de luz.

Com o passar dos dias, a flor crescia e expandia rapidamente seus ramos e flores, mas você parecia não se importar com a presença de uma nova planta na praça. Vinha até ela, sentava-se ao no banco seu lado, mas nem olhava para a pobre flor que insistia em envolvê-lo com seu perfume. 

O que haveria de se passar em sua mente sempre que vinha para a praça se assentar naquele banco? E a flor se irritava por não entender você. Queria gritar para que você ouvisse, queria que você a notasse ao seu lado. Mas flores não falam, assim como as estrelas.

Foi quando a flor percebeu que se as estrelas não podiam amar um homem, as flores também não, pois nenhuma das duas tem o poder de confessar esse amor. De que valeu então abandonar sua vida de estrela para se tornar uma simples flor presa a terra por suas raízes que não a deixavam se mover? Como doía vê-lo partir todas as noites sem que nada ela pudesse fazer que não fosse deixá-lo ir.

Se uma flor pudesse chorar, aquele seria o momento, já que havia se tornado tão simples, se rendido tão completamente a um amor impossível. Uma flor não podia amar um homem, pois este nunca entenderia este amor. 

Numa dessas noites que você ia a praça, a flor conseguiu, enfim, ver o motivo de seus passeios noturnos por ali. A sombra de uma moça que se formou pela janela atraiu como ímã seus olhos atentos. Era ela a dona de seu coração.

A florzinha ficou triste, pois sabia que não podia competir com uma mulher de verdade, nem que fosse somente com sua sombra, pois flores não têm olhos sedutores, nem lábios delicadamente pintados. Nunca poderia abraçá-lo, nem sequer dizer o quanto o amava.

Então a florzinha chorou lagrimas de orvalho. Lágrimas que foram logo acolhidas pelo brilho da bondosa Lua.

– E desta vez, minha filha, por que chora?

Pobre florzinha... Soluçava perfumosa de arrependimento. Como pode acreditar que o simples fato de estar na Terra faria você se apaixonar? Respondeu envergonhada de sua ingenuidade:

– Meu amado, senhora Lua, nem sabe que existo. Eu, daqui de baixo, só posso me perfumar e esperar que ele me veja, mas parece que nunca olha pra mim... Acho que me enganei. Ser flor de nada adianta.

– Pois me diga então o que gostaria de ser?

A flor suspirou a brisa da madrugada. Sabia o que queria, mas sentiu medo de estar novamente enganada ou se arrepender mais tarde. E o temor se tornou maior do que a força que ela tinha para lutar pelo seu amor. Talvez aquele fosse mesmo um amor impossível. Até que ponto vale a pena lutar por uma utopia?

– Se não for pedir demais – a flor secava nas folhas suas lágrimas de orvalho – gostaria de voltar para a minha antiga vida no céu. Voltar a ser estrela.

A Lua se espantou com o pedido.

– Mas e o seu amado? Vai desistir do amor sem lutar por ele? Vai deixar o pessimismo vencê-la assim?

– E de que vale ser otimista se a realidade nos mostra sempre o quanto nossos sonhos não se realizam?

A Lua foi obrigada a aceitar a opinião da florzinha. Porém, naquele instante, lhe veio uma luz, uma idéia que poderia ajudar a pequena flor.

– Eu lhe tenho uma sugestão – sorriu a Lua – Eu lhe transformo em mulher, por uma única noite, para que possa confessar seu amor. Voltarei para saber sua decisão final.

E assim aconteceu. Na noite seguinte, assim que você se sentou na praça, a Lua lançou sobre a florzinha um raio de luz encantado e a florzinha se transformou na mais bela moça que você já tinha visto. A pele tão branca, macia e aveludada que mais lembravam as próprias pétalas da flor que havia sido. Os olhos eram brilhantes como um par de estrelas roubadas do céu. O cabelo longo e negro como a noite lhe caia sobre um dos ombros, transado com flores, e o vestido que lhe cobria o corpo era de uma seda branca nunca vista por ninguém.

Vendo-se naquele corpo, a florzinha (que antes era estrela e agora era mulher) soube o que deveria fazer. Viu a sombra da moça na janela e, engolindo seco, foi até você.

– Boa noite. – ela disse sorrindo.

– Boa noite. – você respondeu.

A moça pensou por um instante e continuou:

– É sua namorada? A moça da janela?

Você se espantou com a pergunta atrevida da moça. Pensou por um momento e respondeu:

– Não.

– Mas você gosta dela, não é verdade?

Você já ia responder quando se deu conta da situação: estava falando de sua vida particular com uma desconhecida que acabara de chegar e que, julgando pela aparência dela, nem era dali.

– E quem é a senhorita?

– Eu... – ela pensou – Sou uma amiga. Mas você não respondeu a minha pergunta. Você ama aquela moça?

– Amo, mas de que adianta? Ela nem sabe que eu existo... Eu, pobre que sou, não sou digno nem mesmo de sua sombra projetada na janela. Daqui da praça, tudo que posso fazer é apreciá-la em seu quarto e esperar que, quem sabe um dia, ela me veja, mas parece que nunca olha pra mim.

A moça compreendeu, pois percebeu que mesmo entre seres de uma mesma espécie, poderia existir amor não correspondido. Que você sofria do mesmo mal que ela, sem que nenhum dos dois tivesse coragem para se declarar. Estava ali um perfeito triangulo amoroso. Mais uma vez o silêncio se espalhou pela praça.

Foi nesse momento que a moça soube que a coisa certa a fazer, nem sempre é aquilo que mais nos agrada. Que amar muitas vezes significa fazer sacrifícios para ver a pessoa amada feliz. Percebeu que juntos nunca ia dar certo. Era mulher a menos de cinco minutos, o que ela poderia saber sobre a vida em sociedade, sobre civilização, sobre família, sobre ser mulher? Ser humana exigia responsabilidades que ela desconhecia. E uma estrela nasceu para brilhar por conta própria e não para depender de outro ser. Mesmo que esse ser fosse você.

Tirou de seu cabelo cada uma das flores e, com elas, fez um belo buquê. Colocou-o em suas mãos como se entregasse a você o puro coraçãozinho dela e disse num sorriso triste:

– Tome estas flores. Entregue-as a sua amada e diga o quanto à ama. Ela saberá retribuir esse amor.

Dizendo isso, ela lhe abraçou forte e longamente. O abraço que esperou tanto para receber era agora um abraço de despedida. E a moça chorou sobre seu peito. Pela primeira vez, eram lágrimas reais, lágrimas doidas e apaixonadas que você não compreendeu. Então ela o deixou ir. 

E você foi. Quando olhou para trás e não viu mais a moça, pensou ter tido uma alucinação. Mas as flores eram reais e as lágrimas em seu peito também. Você bateu à porta. Uma velha senhora atendeu.

– Como posso ajudá-lo?

Você hesitou por um instante antes de responder:

– A sua filha está em casa?

A senhora soltou uma risada.

– Filha? O moço deve ter se confundida de casa. Eu moro sozinha.

Você se sentiu tonto. Ou aquela mulher não queria que você falasse com sua filha ou algo muito estranho estava acontecendo. Não era aquela mulher a dona da sombra na janela, pois a sombra ainda estava lá. 

– A senhora tem certeza que não mora com outra moça em casa?

– Claro que sim – a senhora respondeu um pouco desconfiada. – Só eu de Deus.

– Mas a sombra de uma moça que eu vejo todas as noites com a senhora, de quem é?

A senhora sorriu. Você não entendeu. Então ela o levou até o quarto de sua amada. 

– Viu? – a senhora explicou – Este é meu atelier. Eu sou costureira. A sombra que você vê pela janela não passa de um manequim.

Você pediu desculpas e se afastou da casa entristecido. Trazia o coração partido por saber que tinha se entregado a alguém que não era real, a uma simples imagem, uma boneca. O perfume das flores em suas mãos ainda o envolvia, lembrou-se da misteriosa moça e olhou para o céu. Mal sabia você que quem mais sofria com isso era a pobre estrelinha, que desistiu de seu grande amor por uma mentira.

Quem escreve


                                


Sou Ana Paula Lopes, jornalista e mestranda em Linguística da UFV. Natural de Viçosa, já me classifiquei em dois concursos de literatura nas categorias conto e história infantil. Sinto-me muito feliz em poder contribuir com o blog mostrando um pouquinho do meu trabalho.



quinta-feira, 16 de julho de 2015 

Odile


"Esse é o meu lugar." pensou ela, no exato momento em que pôs um pé para a frente e levou um encontrão de alguém que passava com uma bandeja cheia de módicas porções de algum crustáceo adornado com molho. "Aqui nesse engasgo de encruzilhada".

Desculpas foram murmuradas e a bandeja seguiu flutuando acima das cabeças, cheias de laquê ou gel de cabelo. 

O pensamento lhe ocorreu, não porque gostasse de crustáceos, ou mesmo do garçom: as palavras lhe vieram meio que como sugestão do universo, metalinguagem do próprio recado que lhe estava dando. 

"Por mais que eu ande, dance, circule e eventualmente coma módicas porções de petiscos com molho, sempre acabo passando de novo neste ponto... Estagnada, o fluxo impedido." concluiu. 

A mente trabalhava a todo vapor, percebendo o ambiente, enquanto apenas uma parte tinha ciência do pensamento perturbador e tomava nota, como um lembrete deixado na porta da geladeira. 

Ela gostava do fluxo natural das cadências. A fechada de caminho quebrara seu ritmo, que ia embalado pelo ruído das centenas de vozes (eufóricas, talvez até histéricas) que eram emitidas e se batiam e rebatiam diversas vezes nas paredes do imenso recinto. Recuperou-se e retomou a linha principal de seus pensamentos, que envolviam praguejar contra o volume alto demais daquela reprodução estourada do que um dia alguém chamara de música. 

Envolviam também uma urgência não verbal de sentar-se para calar os pés, massacrados por sapatos de salto que ela nem ao menos queria estar usando. Apesar de todos os incômodos, seu saldo de sensações era inexplicavelmente positivo. Talvez fosse um certo contágio com a ideia de grandeza e importância que todos pareciam ter de si mesmos, como se acreditassem estar num baile da nobreza do século XVII. Essa fantasia também a penetrava, numa osmose catalizada por docinhos graciosos, módicas porções de crustáceos com molho e bebidas servidas em copos de cristal. 

Sim, bebidas! Elas ajudariam a neutralizar a dor e seu senso, por demais críticos. 

"Bem que eu sentia falta de alguma coisa...". 

Houve certo rebuliço e exclamações de prazer na parte do seu cérebro que se sentia um tanto quanto seca, como se vários publicitários trabalhassem num escritório lá dentro e houvesse um boato de aumento. Um pouco de embriaguez talvez tornasse seu peso mais leve sobre os saltos e embaçasse os ouvidos, passando também sobre os olhos um filtro dourado como as sandálias de quem usa estampa de oncinha.

Saiu andando, agora de maneira mais firme e decidida. Era sempre constrangedor andar sem rumo numa festa. Todos pareceiam ter coisas muito importantes ou divertidas para fazer. 

"Bom, agora também tenho." gracejou consigo mesma, satisfeita. Aliás, quase: a real satisfação viria quando tivesse cristal e líquido âmbar entre seus dedos. Poderia até ficar parada, blindada, bebendo em silêncio... Verdadeiro luxo! Nada autorizava mais alguém a ficar parado numa festa do que ter um copo nas mãos.

Com o repuxo irônico dessa sabedoria entortando os lábios ela foi desviando dos vários paletós e vestidos que ocupavam os espaços, existências febris pulsando dentro deles. Ela quase não reparou em seus rostos. Os olhos corriam, metódicos, em busca de gravatas borboleta - símbolo extra oficial de servidão, que abraçava tal qual coleira o pescoço dos garçons. De forma automática, descia das gargantas para as bandejas, eliminando sistematicamente as que continham alimentos. 

Buscava algo mais interessante para sua própria garganta do que crustáceos, gravatas ou molho, e de preferência em não tão módicas quantias. Avistou afinal taças compridas, cheias de um líquido mais claro e borbulhante que o desejado e projetado por seus pensamentos. 

"Mas serve." pensou, uma sensação já agradável lhe tomando. 

- O senhor me vê uma taça, fazendo o favor? - pediu ela, tentando não deixar transparecer a sua avidez. O garçom olhou-a de cima a baixo e com a mão livre ajeitou a gravata borboleta, como quem coça uma chaga. 

- Sinto muito, mas a senhorita é obviamente menor de idade e não posso te dar bebida. 

A isto, a princípio, ela não soube como reagir. Aquilo nunca lhe acontecera na vida, nem mesmo quando era menor de idade. Forçando um sorriso simpático, ela perguntou: 

- E quantos anos o senhor acha que eu tenho, pelo amor de deus? 

Talvez captando uma parte da ironia mal contida da pergunta, o homem hesitou por um segundo antes de responder, ensaiando um sorriso triunfante: 

- Quinze. Uns quinze no máximo.

Dessa vez ela não pôde se conter. Um riso lhe sacudiu de tal forma que ela mal reconheceu a própria voz. Enxugando os olhos, apanhou a taça que lhe foi estendida e limpou o riso com um suspiro e um gole. Algo no sarcasmo dos olhos, no cansaço da sua risada, convencera o garçom melhor do que um documento de identidade faria. Não se pode falsificar esse tipo de coisa na impressora de casa, afinal de contas. 
Afastou-se do garçom (e da sua bandeja) meio a contragosto. Gostava do peso da taça nas mãos, mas gostava mais do peso do líquido descendo pela garganta e se alojando no estômago. Seu cérebro contorceu-se de alegria, vibrando como se no escritório todos estivessem assistindo a um jogo de futebol no meio do expediente. Gol. Logo precisaria de refil. Controlou-se para não beber muito rápido e fazer render o momento em que podia parar de fingir estar interessada em qualquer coisa que as pessoas estivessem usando para se entreter. Ah, abençoados minutos! 

Não que ela não gostasse de festas... Estas eram, afinal de contas, um habitat natural de bêbados e ela gostava muitíssimo de pessoas embriagadas. O que mais a incomodava nesse tipo de evento era o quê de histeria na pulsação das pessoas, desesperadas para se divertir. O que festejavam, afinal, se precisavam catar migalhas de alegrias artificiais? 

"Por favor, não tente puxar conversa. Por favor, por favor, por favor..." pensou ela, ao notar a aproximação de um homem à sua esquerda. As palavras se repetindo na cabeça como uma prece, enquanto tentava evitar contato visual. O esforço mostrou-se inútil, como de costume. O homem, não percebendo seu desconforto (ou simplesmente ignorando-o por comodidade) tratou de colocar-se aso seu lado e olhou ao redor em busca de um assunto qualquer para lhe falar. 

"Se ao menos esses copos viessem com um sinal de 'ocupado', como quartos de hotel ou plaquinhas de rodízios..." resmungou consigo, enquanto fazia um contorcionismo para parecer desconhecer a tentativa dele de comunicar-se com ela. "Ao menos, pelo cheiro ele parece bêbado. Talvez seja até uma conversa entretível." pensou, tentando consolar-se. 

- Festão... - começou ele, aparentemente cansado de procurar um motivo mais digno para quebrar o silêncio. 

- É. - disse ela, virando-se para ele, enfim. 

Com o terno já aberto e a gravata frouxa, o homem devia ter seus 40 e poucos anos. O rosto levemente avermelhado e os olhos brilhantes confirmavam o que o cheiro sugerira: ele estava bêbado como um peru de natal. Sentindo sua simpatia crescer quase que automaticamente, ela acrescentou: 

- O buffet é de primeira. 

Quase arrependeu-se do complemento quando ele, sentindo uma abertura, assumiu-se autorizado a intimidades: 

- Você bebe muito pra sua idade. - disse, algo entre risonho e repreensivo.

"Haja!" gritou ela por dentro, sem poder impedir os olhos de se revirarem nas órbitas. Segurou a língua ferina, sem paciência para confusão, e lançou uma resposta ambígua: 

- Fazer o quê? Champagne bom da porra. 

- Você também xinga bastante pra sua idade... 

- E você parece ter bastante ciência dos dados do meu nascimento. - ralhou ela, agora visivelmente irritada - Vamo lá, conte-me mais sobre as minhas primaveras! 

O homem engoliu em seco (talvez não tão seco assim) e balançou de leve para trás como se a raiva tivesse lhe atingido e desequilibrado tal qual corrente de ar. Depois de piscar algumas vezes em silêncio, soltou um arroto de boca fechada e tentou outro caminho: 

- Não provei... Prefiro Whisky. - retomou, o tom de voz já mudado. 

Ela respirou fundo e, olhando para a própria taça, já quase vazia, matutou se saía e o deixava falando sozinho ou se dava chance para a conversa. Acabou optando pela segunda opção, afinal Whisky era bom demais. 

- Eu também, mas não achei e minha garganta estava bem seca... 

- Posso te mostrar onde tem. - ofereceu ele, abrindo um sorriso vesgo. - Peguei tantos que o garçom já sabe até meu endereço. 

- Parece ótimo. - riu ela, virando a taça de champagne e colocando numa mesinha com outros copos e pratos vazios. 

- O nome dele é William e você não acredita em como eles pagam mal... - continuou ele, enquanto abriam caminho pela festa, conversando. 

Arranjei quem me aguente por hoje" pensou ela, satisfeita consigo mesma e com a noite. Módicas porções de interação social não lhe fariam mal, no fim das contas. Principalmente se acompanhadas de não tão módicas quantias do líquido âmbar que era tão aguardado pelos escritórios secos da sua mente.

Quem escreve

                      


Me chamo Lana, tenho 20 anos e uma incrível fome de mundo(s). Sou uma amante das histórias. Apaixonada por ouvi-las e contá-las de todas as maneiras, através das mais diversas artes e suportes. Desde pequena fui encantada pela música, pelo movimento do corpo, pela magia... E pela literatura, que me apresentava mundos fantásticos além deste, me dava o direito de viver mil vidas além desta. Talvez seja por isso que escrever seja a arte que eu faça com mais intimidade e coragem.

Seja como for, o importante são as histórias