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Aproveitando o mês de aniversario, e também a Flip deste ano que homenageia a autora, selecionei cinco fragmentos para se (re) apaixonar por essa mulher que retalhava cotidianos transformando-os em poesia marginal.
 Sempre recriando a si mesma, Ana era a perfeita mistura da modernidade e cotidianos turbulentos escrevia com uma sentimentalidade intensa e passional, assim como todo o resto de sua vida.

        1-    Samba canção:
    “ fui mulher vulgar, 
      meia-bruxa, meia-fera, 
      risinho modernista 
      arranhando na garganta,
      malandra, bicha,  
      bem viada, vândala, 
     talvez maquiavélica, 
     e um dia emburrei-me, 
     vali-me de mesuras "



  2-    pouso a mão no teu peito
   mapa de navegação
   desta varanda
    hoje sou eu que
    estou te livrando
    da verdade



    3-     Fevereiro:
Quando desisto é que surges
Quando ruges é que caio.
Quando desmaio é que corres
 Quando te moves me acho
Quando calo me curas
E se te misturo me perco...”


      4-    Ciúmes:  
"Sinto ciúmes desse cigarro que você fuma tão distraidamente."



5-    Esqueceria outros:
“Pelo menos três ou quatro rostos que amei Num delírio de arquivística organizei a memória em alfabetos como quem conta carneiros e amansa no entanto flanco aberto não esqueço e amo em ti os outros rostos”



Apesar da grandiosa obra é bem difícil encontrar fragmentos da poetisa na internet, mas é possível encontrar sua coletânea realizada pela companhia das letras no link: https://companhiadasletras.paginaviva.com.br/carrinho.cfm?id_ProdutoLoja=9788535923629  

 Tá aí uma das milhões e infinitas coisas que me incomodam absurdamente! Não é de hoje que sobrevivo quase que de modo obtuso aos ditames de grandezas que atingem, com assombro, a existência das mulheres – de muitas! Mas, enfim, onde mora o impasse? Eu respondo! No “inha”, no Mi, no Nay, no La, no Tha, e por aí vai! Tudo bem! Eu até entendo a facilidade promovida pele encurtamento, mas, então, por que diabo não nos deparamos com tanta fluidez em apequenar o masculino?! Pelo contrário, pois, ainda que notoriamente pequeno, são eles donos do “ão”. Logo, é Lucão pra lá, Murilão pra cá, Felipão de cá, e assim segue o roteiro.

Minha ideia, sem pretensões mais analíticas, é que há uma pura e grave ameaça a virilidade, pois quem se arriscaria a chamar um homem de Felipinho, por exemplo?! Claro, a menos que a intenção seja a sátira, não há aplicação que denote o contrário. E é aí a minha grande implicância, pois se relegado ao deboche ou ao atributo da fragilidade, é porque nós, ainda que gentilmente, somos fixadas no paradigma arrogante de nos postar em menor escala.


O problema, ademais, é tão irresolúvel e enraizado na mentalidade humana que, quando fazemos uso da formalidade nominal completa, incorremos no grande risco de arranharmos vulnerabilidades e amadurecermos relações de pouca empatia. Até mesmo porque o legado do menor e pequeno se incute afavelmente nas novas formas de nos invocarmos. É quase que um simpático ursinho de pelúcia estendido no meu colchão! Só que eu detesto ursinho de pelúcia e, portanto, requeiro por direito e certidão que se mantenha a designação abstrata que me ofertaram ainda pequena – sem mais, nem menos! Por favor. 




       Embora religião e feminismo se contraiam em paradoxos possivelmente jamais corrigidos, não raro, me tomo por Lilith quando sufocada em situações desagradáveis ao cenário e desafios femininos. Curiosa por natureza, estou sempre à procura por novos lugares, comidas, bebidas e, por que não, pessoas?! Enfim, desprovida de habilidades para preliminares sociais, mas atenta ao que insiste em ser incorrigível, vivo conflitos que me obrigam a abandonar o “Jardim do Éden”. Mas, ainda que herdeira das interpelações de Lilith, me nego a condição de simplesmente fugir. Se o Éden é o local do masculino, eu, personificação ressemantizada de um protagonismo (conspiratório?!) religioso, a mim imponho o dever de ficar.

     Se filha de Lilith, sou legatária de espaço, de voz e de poder. Sou obra desmedida e dona de mim.  Não há lugar por onde eu passe que não me julguem pela ausência de idoneidade já esquecida desde minha concepção como Lilith. Se às vezes cansada de fincar raízes em pontos de resistência, penso, por outro lado, na dívida contraída com aquela que se fez só sob a transparente franqueza em não ser linha míope do sujeito que sobrepujou a competência (ilegítima) de nos dominar. E eu sigo! Sigo como interlocutora irredutível não mitológico que, já distante do “Jardim do Éden”, não se satisfaz em ouvir apenas o eco da própria voz de Adão.


Sabe quando o estupro acontece? Quando você, ao sair de casa, passa por um ou vários homens que a encaram sem o menor pudor enquanto lançam suas cabeças e corpos que vão em conjunto a palavras reduzidas à extensão do seu corpo, à idade, ou ao mérito da gostosura. E você?! Disciplinada para ser submissa e intimidada pelas proporções de um dado biológico, desvia os olhos e caminha.

Sabe quando o estupro acontece? Quando seus amigos, namorado, pai e irmão se impõem pelo timbre de uma voz que sucumbe ao desejo de não querer ouvir, de ser exclusivo em razão e poder, e de ter vantagens sobre um corpo atravessado pela virilidade do discurso.

Sabe quando o estupro acontece? Quando ele controla suas roupas, suas saídas com amigas que, uma ou todas, são rotuladas como influência negativa ao bibelô que se quer criar. Quando ele não aceita que você saia sozinha. Isso mesmo! Porque sair sem ele, ainda que com outras mulheres, é estar à própria sorte em um universo que só nos reconhece à sombra do masculino.

Sabe quando o estupro acontece? Quando ele diz que você é rodada e, portanto, ideal para os amigos que não querem nada “sério”. Quando ele invoca rivalidades femininas ao elogiá-la dizendo: “você é diferente das outras!”. Quando, para convencer os amigos de que você foi A pegada da noite, ele simplifica alegando o quanto você é “gostosa”, ou extremamente linda.

Sabe quando o estupro acontece? Quando ele se satisfaz por ter gozado e ponto! Quando ele relativiza a violência contra outras mulheres perguntando: “você sabe o que ela fez, onde ela estava, que roupa usava, ou se ela o traía?”, ou, quando, para ele, a resolução dos problemas se resume a ser bem ou mal comida.


Enfim, você sabe quando o estupro também acontece? 


De manhã, após se abrirem, os olhos iam se fixar no teto. Lá ficavam por dez, quinze, vinte minutos. Às vezes mais, às vezes menos, mas sempre lá. De vez em quando nem era manhã: comumente acordava após o meio dia. O pensamento não ia muito além daquele espaço com tinta descascada onde a vista se fixava. Era a letargia do despertar fazendo seu trabalho rotineiro.

Em seguida, o desjejum era emendado no almoço, e não raro comia arroz e feijão acompanhados de uma xícara de café. Se havia alguém na cozinha conversava banalidades: fofocas da vizinhança, programas da TV aberta, convites para aniversários da família. Às vezes ouvia alguma notícia sobre chances de emprego. “Vai lá, conversa com fulano, quem sabe você não consegue alguma coisa?”.

Já fazia dois anos, e nunca conseguia. Quando não era informação furada, era um emprego com exigências demais para sua pouca (quase nenhuma) experiência. Desde a formatura só fazia bicos e no máximo conseguira ficar por dois meses numa loja. Foram os piores. A falsa sensação de independência que o salário medíocre conferia não compensavam o cansaço e as amolações.

Com as tardes seus olhos passavam a se ocupar com as telas. O smartphone e o computador faziam certo trabalho de distração, mas era defronte à TV que passava a maior parte do tempo. Assistia principalmente a filmes, fosse no sistema por assinatura ou baixados pelo computador. Gostava de todos os gêneros, em especial os de aventura. O que era uma ironia, já que sua vida nunca tinha nenhuma.

Vinha a noite, chegava a madrugada, e prosseguia na mesma atividade. Geralmente só a concluía depois das três da manhã, quando começava a sentir um pouco de culpa. Sempre desligava os equipamentos pensando em dormir mais cedo, cuidar da saúde. Com isso pensava que também precisava comer melhor, se exercitar...

Ia se deitar, repousava as pálpebra sobre os olhos cansados e deixava o sono vir. Se não vinha, tentava contar carneirinhos ou qualquer outra técnica em que, no fundo, não acreditava. Tanto podia apagar de vez, quanto revirar na cama a noite toda sem sucesso. Nessas ocasiões, a frustração era o bastante para não permitir que seus pensamentos fossem muito além do incômodo de não dormir.

Esses hábitos, com suas pequenas variações, se repetiam cotidianamente. Os sábados e domingos não diferiam muito do resto da semana. As quebras de rotina vinham com um ou outro compromisso trivial. As tais festas de aniversário, uma ida às compras, ou as raras ocasiões em que aceitava os convites dos amigos para sair. No mais, cada dia era semelhante ao outro e nada de novo acontecia.

E era somente nos poucos momentos em que a mente se permitia divagar que o marasmo com o qual se acostumara vinha incomodar. Quando o teto do quarto não vidrava seus olhos, quando as telas não capturavam sua distração, quando a falta de sono não virava a atração principal: era então que questionava sua vida.

Parecia que nada havia dado certo até agora. E, também, o que havia feito para que desse? Esperar por um emprego não estava funcionando. Será que era hora de mudar de estratégia? Seguir outro rumo, buscar outro sentido para as coisas. E se não fosse estabilidade financeira o que realmente queria e precisava? Via as vidas de seus colegas de faculdade e eles se dividiam entre os que estavam trabalhando em grandes empresas e os que se encontravam naquela mesma situação. Talvez estivessem fazendo as escolhas erradas.

Pensava nos filmes que via, ou mesmo nas notícias que lia de pessoas com vidas intensas e interessantes. Nunca vivera nada intenso ou interessante. Durante o curso, optara por se concentrar em sua grade curricular, dispensando uma oportunidade de intercâmbio. Agora, mesmo sem ter nada de seguro em que se agarrar, continuava optando por uma suposta ideia de estabilidade em vez de qualquer chance de aventura.

Uma aventura. Sentia que era disso que precisava. Podia ser esse o momento de largar tudo, juntar as coisas numa mochila e sair em viagem pelo mundo afora. Mal conhecia outros estados. Outro país, então, só virtualmente. Já sonhara em visitar a Europa, a Ásia e a própria América Latina. Atualmente pensava muito menos nessas coisas, como em todos os seus outros sonhos.

Não sabia se havia mais aventuras em que podia se jogar. As dos filmes geralmente eram aquelas coisas impossíveis. Talvez porque, nos filmes, quase sempre não são os personagens que procuram por ela, mas ela vai até eles. Tinha certeza de que ninguém viria lhe dizer que passara numa seleção para um reality show de sobrevivência, ou que tinha de ir em busca de um tesouro escondido que não sabia que tinha herdado.

Talvez uma aventura pequena fosse suficiente. Ou uma grande, mas que pudesse manter enquanto continuava esperando pela estabilidade. E, aos poucos, ia diminuindo suas expectativas. Diminuindo e voltando para sua própria realidade, para sua rotina, sem saber se, no dia seguinte, o desejo por algo mais voltaria também.