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Mad Max: Estrada de Fúria (imagem: reprodução/internet)

Filmes e produções audiovisuais como um todo se diferem da maioria das formas de arte pelo seu caráter primordialmente coletivo. Eles não são como um livro, uma pintura ou uma escultura, que por serem feitos quase sempre de forma individual – no máximo em pequenos grupos – trazem clara a marca de seu criador.

Ao contrário, eles quase sempre demandam grandes equipes, que podem até seguir a mente de uma única pessoa, mas que contribuem de algum modo para a pluralidade do resultado. E grandes produções, principalmente, refletem os interesses de várias pessoas e organizações. Mesmo obras mais autorais, muitas vezes, acabam tendo um dedo ou outro de colaboração criativa.

Por isso é tão difícil pensar no caráter ideológico de um filme ou série de TV. Se por um lado é perigoso definir a bandeira de um filme apenas por seu conteúdo, sem considerar os interesses por trás dele, por outro é complexa a própria classificação desses interesses. Na hora de fazer essa análise entram em jogo os objetivos artísticos e financeiros, a liberdade criativa, o envolvimento de cada membro da equipe e vários outros fatores.

Eu acredito que isso faz com que a definição “este filme é feminista” VS “este filme não é feminista” acabe sendo mais subjetiva. Tendo, entretanto, critérios objetivos. Por mais que se possa entrar em dúvida se Mad Max – Estrada de Fúria (filme com conceitos feministas, mas dirigido e produzido por homens) é um filme feminista, não dá pra creditar como feminista uma comédia depreciativa do nível de A Verdade Nua e Crua apenas por ter mulheres no elenco. Também é bem doloroso ver alguma obra sendo considerada feminista a despeito de seu envolvimento com um diretor ou produtor abusador, por exemplo.

É compreensível a escolha tanto de quem só considera um filme feminista pela combinação de bastidores e conteúdo, quanto quem dá pesos diferentes para ambos os lados. É uma análise complexa, afinal de contas.


                                                   (Foto:Divulgação)

O cinema atual não é só constituído das mesmas cartas marcadas (normalmente do sexo masculino) onde mulheres costumavam a ter papeis coadjuvantes ás margens de um personagem masculino e poderoso.
Atualmente o cinema brasileiro apesar de estar longe de uma igualdade, é bem  mais dependente das mãos de cineastas femininas. Conheça cinco mulheres que fazem toda a diferença na sétima arte em solos brasileiros.

                                                     (Foto:Divulgação)

1-     Lucia Murat: foi presa e torturada nos porões da ditadura militar fato que exerceu uma influencia fundamental para a sua obra.
    Obras de destaque: Que bom te ver viva (1989), Quase dois irmãos (2004), e A memória que me contam (2013)

                                                           (   Foto:Divulgação) 


2-     Lais Bodanzky: Além de diretora, também é roteirista e sua obra “Bicho de sete cabeças” foi considerada um dos filmes mais marcantes do cinema brasileiro o que lhe rendeu diversos prêmios

                                                                 (Foto:Divulgação)


3-     Anna Muylaert: Produtora de diversos programas de TV a cineasta produziu diversos curtas e teve sua carreira marcada pelo filme “Que Horas ela volta” sendo ganhadora da premiação “Grande premio do cinema Brasileiro”
 
                                                              (Foto:Divulgação) 

4-     Carla Camurati: Além de cineasta Carla também é atriz. Dirigiu diversas adaptações de Giacomo Puccini. Atuou em novelas e em 12 longas metragens.

                                                                     (Foto:Divulgação)


5-     Petra costa: Estreou no cinema produzindo e dirigindo o curta-metragem Olhos de Ressaca (2009). O primeiro longa, Elena (2012) que foi praticamente um documentário autobiográfico, foi exibido no festival Internacional de Cinema de São Paulo, na Semana dos Realizadores (Rio de Janeiro), no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA) e no Festival de Brasília do Cinema Nacional.


Reprodução/internet
Este post pode soar um pouco desatualizado, haja vista que a notícia que o motivou já tem umas boas semanas. Mas a reflexão que ela me trouxe ainda é bem pertinente. O negócio é que eu fiquei sinceramente com medo quando soube que As Caça-Fantasmas deu prejuízo nas salas de cinema.

Antes de tudo, é preciso entender o significado desse filme. E, principalmente, seu papel como símbolo. Versão "gender bender" (de gêneros trocados) do clássico pop dos anos 80, As Caça-Fantasmas pode até não ser uma obra genial - o original também não é -, mas já pode ser considerado corajoso por ser assumida e propositalmente representativo.

E sob uma máscara de nostalgia que mal disfarça o motivo real (dica: machismo),  grupos boicotaram a produção desde antes de seu lançamento. Olha, de fato nem eu gostei muito do primeiro trailer lançado, mas "gosto" definitivamente não é explicação o bastante para que ele tenha batido recorde de avaliações negativas no YouTube.

Isso tudo, aliado à propagação em massa do clássico "nem vi e sei que é ruim" fizeram a película passar quase instantaneamente no Teste da Furiosa. Aquele que mede a qualidade/representatividade de uma produção baseado na fúria (sem trocadilho) dos machistas na internet (leia sobre ele, em inglês, aqui).

É isso (e boicote) que machinhos fazem quando descobrem um filme que não foi feito para eles

Mas, diferentemente de Mad Max: Estrada da Fúria, o boicote dessa vez parece ter dado efeito - ou pelo menos é essa a impressão que ficará para muitos. E é justamente por isso que eu tenho medo. Temo duas fortes - e péssimas - possibilidades: ou os haters se sentirem responsáveis e consequentemente mais encorajados para novas investidas, ou os grandes produtores se sentirem acuados e diminuírem os avanços que já tivemos nesse aspecto. A antes confirmada sequência de As Caça-Fantasmas, inclusive, já foi posta em xeque, como dito na matéria que gerou este post.

A gente sabe bem como funciona o mercado. Tudo é feito visando o público e, principalmente, o lucro. Não dá para ser ingênuo de acreditar que o crescimento de produções representativas e/ou empoderadoras foi meramente por ideologia. O que houve foi um crescimento da projeção do público preocupado com essas questões, que passou a ser visto como expressivo, ao ponto de provocar mudanças.

Mas se os haters e machistas começarem a ser vistos como uma parcela significativa do público, as coisas podem se complicar. Porque se tiverem que escolher entre agradar o público desconstruído (promovendo mais desconstrução, aliás) ou o dinheiro, é óbvio que sempre ficarão com a segunda opção.

Isso pode até parecer desmotivador, mas eu acredito que só reforça que não podemos parar de reivindicar e fazer nossas vozes valerem. Não foi ficando caladas no cantinho em que nos colocaram que conseguimos começar a mudança.

Ao contrário do que tentam alegar, até nosso "textão de Facebook" já fez e continua fazendo diferença. Mas ele de fato não é o bastante. Nossas reclamações e manifestações nos fazem sermos vistas como público em potencial, mas não como efetivo. E é exercendo os dois papéis que conseguimos alguma coisa. E, no final das contas, faz mais sentido focarmos nossas energias (e nosso dinheiro) em produções que se alinham com nossos ideais, né?

É mostrando a que viemos que conseguimos resultados
E é claro que eu não estou falando de simplesmente encher os bolsos de grandes produtores como "prêmio" por terem se adequado a novas tendências. Nem mesmo falo de sair assistindo o que não nos agrada só por ser representativo. Mas, primeiro, eu incluo aqui também o incentivo aos pequenos e principalmente pequenas profissionais da arte e do entretenimento, que precisam ainda mais dele. Segundo que só de nos esforçarmos um pouquinho para prestigiar coisas que gostamos e TAMBÉM são representativas já estamos fazendo alguma coisa.

E por último, mas não menos importante: só se muda um mercado por dentro. E o primeiro patamar que alcançamos para mudar a indústria cultural é o do público. Sendo vistas como público "ganhamos" produções que podem, inclusive, despertar novas criadoras entre nós. 

Isso, aliado às nossas reivindicações por representatividade, só tende a aumentar o número de produtos escritos, desenhados, dirigidos, produzidos por mulheres. Vide os vindouros filmes da Mulher Maravilha e da Capitã Marvel e suas diretorAs. Aos poucos vamos ocupando novos espaços e promovendo exatamente a mudança que os haters não querem ver. E eles que se acostumem

A gente chega lá!