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                                                           (Foto:Tumblr)



A sensação de não se encaixar em porra nenhuma é algo que sempre influenciou à minha maneira de viver a vida.
Comecei a faculdade em um curso e universidade ambos maravilhosos e ao mesmo tempo que sentia como se nada me faltasse, um vazio imenso e uma dificuldade enorme em socializar com aquele pessoal me tiravam do sério.

Nunca tive dificuldades em socializar, inclusive a miscigenação de culturas, gostos, modo de ver a vida foi algo que sempre me encantou e atraiu-me profundamente.
O fato é, eu sempre me achei errada demais para o mundo e tentava realizar mudanças impossíveis no meu modo de viver. Mas será que eu estive certa esse tempo todo em que tentei mudar meus aspectos para me encaixar em uma sociedade extremamente escrota e por muitas vezes ignorante?  Obvio que não, e eu sempre soube disso.

A aceitação de que eu não estava errada em não me encontrar no limbo social, me dá um certo alivio e desespero continuo. É muito chato se sentir sozinha no mundo, abandonada, desgostosa, mas mais chato ainda é fazer parte de uma sociedade padronizada onde as regras são impostas por corpos perfeitos, dinheiro, e vazios existenciais.

O meu vazio é fruto de uma solidão, do fato de não conseguir me encontrar em meio a multidões, e não um vazio de mim mesma. Eu sei que sou completa, tenho meus conhecimentos, minhas vontades, minha solidez pessoal, e eu não preciso de respostas do mundo para saber se estou certa ou errada no meu modo de viver, mudar o mundo sempre foi uma vontade minha da juventude, mas não tornando as pessoas parecidas comigo (até porque isso seria insuportável) o que seria mudar de uma padronização para outra.

O que eu realmente sinto vontade é de pegar um martelo magico que pudesse quebrar todo e qualquer bom costume que obrigue as pessoas a seguirem padrões, e se afastarem de seus desejos e vontades.
Tudo o que eu quero é demonstrar meus desejos, me realizar, e sentir a vida em mim como se sente pingos de chuva em uma tempestade, não aguento mais me esconder da chuva, da vida, das coisas boas que o mundo omite atrás de uma máscara de massificação e padronização.

Eu quero a luz de ser eu mesma e sentir a s radiações alheias como uma mágica que me adentra, me toca, e me transborda, quero ensinamentos e novidades que são inadmissíveis a consciência da sociedade atual.

Afinal, talvez eu só precise de liberdade, liberdade o suficiente para libertar, salvar e me salvar; liberdade de viver sem amarras, travas, mesmices, angustias. O mal amar e o amar fazem parte da alma, estou virando a outra face para a vida bater. 





Quer saber porque eu amo a Freddie Oversteegen? Porque em sua juventude, ela foi integrante da resistência holandesa durante a Segunda Guerra Mundial.

A família de Freddie já escondia pessoas que sofriam perseguição em sua casa, antes da convocação.
Freddie, hoje com 90 anos, foi recrutada juntamente com a irmã, Truus (16 anos), por um homem (cujo nome eu não descobri) quando ela tinha 14 anos. Ele pediu a permissão da mãe delas, para que ambas, que não passavam a suspeita de serem rebeldes, pudessem agir contra os nazistas. 

O grupo do qual as irmãs faziam parte também tinha uma jovem chamada Hannie Schaft, a garota dos cabelos vermelhos, a mais famosa entre as três.

Hannie Schaft e Truus, irmã de Freedie, durante a resistência
                      Truus (à esquerda) e Hannie                               
Hannie morreu antes do fim da guerra, um documentário foi feito sobre ela e seu corpo foi enterrado novamente, com a presença da Rainha Wilhemina e do Príncipe Bernhard da Holanda. Há 15 cidades na Holanda com ruas que receberam seu nome. Já  Truus, após o fim da guerra, se tornou porta-voz dos serviços memoriais e artista plástica.

   

Você acha que ela participava da guerra como soldado? Carregando armas e lançando granadas? Não! O trabalho dela (assim como das outras jovens) era seduzir soldados e lideres nazistas. Ela os levava para a floresta, onde membros armados da resistência os matavam, tiravam as roupas e enterravam o corpo. Freddie garante que nunca participou dessa parte e que sempre preferiu assim.

Thijs Zeeman, cineasta holandês, fez um documentário chamado Duas Irmãs na Resistência para a TV, onde conta sobre Freddie e também sobre sua irmã.

Ela deu uma entrevista para a VICE Holanda contando um pouco sobre como foi sua participação na guerra: 


Qual foi o papel de vocês nessa missão?
Não atirei nele — um dos homens foi quem atirou. Eu tinha que ficar de olho na minha irmã e manter um posto de guarda na floresta, para ver se ninguém mais estava vindo. Truus tinha encontrado o homem num bar caro, o seduzido e o levado para dar um passeio na floresta. Ela disse "Você gostaria de dar uma volta?" E claro que ele quis. Aí eles encontraram alguém — o que era para ser visto como uma coincidência, mas ele era um dos nossos — e o amigo disse para a Truus: "Menina, você sabe que não deveria estar aqui". Aí eles se desculparam, deram a volta e foram embora. Aí vieram os tiros, então aquele homem nunca soube o que o acertou. Eles já tinham cavado a cova, mas não tivemos permissão para ver essa parte.

E vocês não tiveram problema com isso?

Não, eu não queria ver mesmo. Mais tarde eles nos disseram que tiraram todas as roupas dele para que o corpo não pudesse ser identificado. Acho que ele ainda deve estar lá.

Vou deixar o link com a entrevista completa aqui. Freddie se mostra encantadora, uma mulher admirável que fez muito por seu país. A luta, a coragem e a resistência dela servem de inspiração para todas nós.


De manhã, após se abrirem, os olhos iam se fixar no teto. Lá ficavam por dez, quinze, vinte minutos. Às vezes mais, às vezes menos, mas sempre lá. De vez em quando nem era manhã: comumente acordava após o meio dia. O pensamento não ia muito além daquele espaço com tinta descascada onde a vista se fixava. Era a letargia do despertar fazendo seu trabalho rotineiro.

Em seguida, o desjejum era emendado no almoço, e não raro comia arroz e feijão acompanhados de uma xícara de café. Se havia alguém na cozinha conversava banalidades: fofocas da vizinhança, programas da TV aberta, convites para aniversários da família. Às vezes ouvia alguma notícia sobre chances de emprego. “Vai lá, conversa com fulano, quem sabe você não consegue alguma coisa?”.

Já fazia dois anos, e nunca conseguia. Quando não era informação furada, era um emprego com exigências demais para sua pouca (quase nenhuma) experiência. Desde a formatura só fazia bicos e no máximo conseguira ficar por dois meses numa loja. Foram os piores. A falsa sensação de independência que o salário medíocre conferia não compensavam o cansaço e as amolações.

Com as tardes seus olhos passavam a se ocupar com as telas. O smartphone e o computador faziam certo trabalho de distração, mas era defronte à TV que passava a maior parte do tempo. Assistia principalmente a filmes, fosse no sistema por assinatura ou baixados pelo computador. Gostava de todos os gêneros, em especial os de aventura. O que era uma ironia, já que sua vida nunca tinha nenhuma.

Vinha a noite, chegava a madrugada, e prosseguia na mesma atividade. Geralmente só a concluía depois das três da manhã, quando começava a sentir um pouco de culpa. Sempre desligava os equipamentos pensando em dormir mais cedo, cuidar da saúde. Com isso pensava que também precisava comer melhor, se exercitar...

Ia se deitar, repousava as pálpebra sobre os olhos cansados e deixava o sono vir. Se não vinha, tentava contar carneirinhos ou qualquer outra técnica em que, no fundo, não acreditava. Tanto podia apagar de vez, quanto revirar na cama a noite toda sem sucesso. Nessas ocasiões, a frustração era o bastante para não permitir que seus pensamentos fossem muito além do incômodo de não dormir.

Esses hábitos, com suas pequenas variações, se repetiam cotidianamente. Os sábados e domingos não diferiam muito do resto da semana. As quebras de rotina vinham com um ou outro compromisso trivial. As tais festas de aniversário, uma ida às compras, ou as raras ocasiões em que aceitava os convites dos amigos para sair. No mais, cada dia era semelhante ao outro e nada de novo acontecia.

E era somente nos poucos momentos em que a mente se permitia divagar que o marasmo com o qual se acostumara vinha incomodar. Quando o teto do quarto não vidrava seus olhos, quando as telas não capturavam sua distração, quando a falta de sono não virava a atração principal: era então que questionava sua vida.

Parecia que nada havia dado certo até agora. E, também, o que havia feito para que desse? Esperar por um emprego não estava funcionando. Será que era hora de mudar de estratégia? Seguir outro rumo, buscar outro sentido para as coisas. E se não fosse estabilidade financeira o que realmente queria e precisava? Via as vidas de seus colegas de faculdade e eles se dividiam entre os que estavam trabalhando em grandes empresas e os que se encontravam naquela mesma situação. Talvez estivessem fazendo as escolhas erradas.

Pensava nos filmes que via, ou mesmo nas notícias que lia de pessoas com vidas intensas e interessantes. Nunca vivera nada intenso ou interessante. Durante o curso, optara por se concentrar em sua grade curricular, dispensando uma oportunidade de intercâmbio. Agora, mesmo sem ter nada de seguro em que se agarrar, continuava optando por uma suposta ideia de estabilidade em vez de qualquer chance de aventura.

Uma aventura. Sentia que era disso que precisava. Podia ser esse o momento de largar tudo, juntar as coisas numa mochila e sair em viagem pelo mundo afora. Mal conhecia outros estados. Outro país, então, só virtualmente. Já sonhara em visitar a Europa, a Ásia e a própria América Latina. Atualmente pensava muito menos nessas coisas, como em todos os seus outros sonhos.

Não sabia se havia mais aventuras em que podia se jogar. As dos filmes geralmente eram aquelas coisas impossíveis. Talvez porque, nos filmes, quase sempre não são os personagens que procuram por ela, mas ela vai até eles. Tinha certeza de que ninguém viria lhe dizer que passara numa seleção para um reality show de sobrevivência, ou que tinha de ir em busca de um tesouro escondido que não sabia que tinha herdado.

Talvez uma aventura pequena fosse suficiente. Ou uma grande, mas que pudesse manter enquanto continuava esperando pela estabilidade. E, aos poucos, ia diminuindo suas expectativas. Diminuindo e voltando para sua própria realidade, para sua rotina, sem saber se, no dia seguinte, o desejo por algo mais voltaria também.